Seja bem-vindo quem se vier por bem
O penúltimo?
Hoje (sexta) fizemos o penúltimo espectáculo do Cromo Sapiens.
Para aí vinte ou trinta minutos antes de entrar em cena, deu-me a travadinha e decidi mudar coisas no alinhamento. Cortei sequências, realinhei outras, acrescentei ideias que já vinha pensando há algum tempo. E correu tudo muito bem.
Estou convencido que foi o melhor espectáculo de todos os que fizemos até aqui. A sala estava esgotadíssima (e pelas indicações da bilheteira promete voltar a estar amanhã) e a plateia mostrou-se atenta e exigente.
Estou a aperfeiçoar a fórmula e a gostar dos resultados. O facto de as experiências de hoje terem corrido bem, deixou-me cheio de pica para voltar a alterar.
Uma das coisas mais difíceis, mas igualmente necessárias nestes processos, passa por "encurtar" o material. Seleccionar permanentemente o melhor, procurar sempre coisas novas... Nunca nos deixarmos cair no comodismo de pensar "resulta, não mexo mais". Ainda que resulte, é sempre possível melhorar, ainda que seja arriscado, ainda que seja doloroso deixar cair textos que deram gozo escrever e interpretar. Mas só correndo esse risco, podemos saborear a adrenalina de trabalhar sem rede, ter o gozo supremo de sentir que
o espectáculo é um organismo vivo, que cresce e que se adapta, numa palavra: que vive. (Pronto, são duas palavras)
É pena que esteja tão próximo de chegar ao fim. Apesar de todo o prazer que tenho retirado deste processo, sinto que só agora o espectáculo, a Susana e eu começávamos a ganhar a maturidade certas para "explodir".
É mesmo pena que o Cromo Sapiens esteja a acabar...
...Ou será que não está?
Energias
Trabalhar na área do espectáculo cedo me ensinou uma coisa, que aprendi a respeitar como uma máxima: "Aquilo que um actor sente em palco nem sempre coincide com aquilo que o espectador recebe ou apreende". É por isso que uma actor pode sentir desesperadamente o drama da personagem e isso não passar. Podemos sentir muito, muito, muito uma emoção e, em vez de a transmitirmos, acabamos a berrar e a exagerar nas caretas (aquilo a que se chama "furioso dramático"). O público sente que queremos passar uma emoção, em vez de sentir que estamos efectivamente a tê-la. A maior parte das emoções, aliás, manifestam-se de forma subtil e discreta.
Transmitir
tristeza, p.e.: Um actor inexperiente sente que o melhor que tem a fazer é chorar baba e ranho, gemer, tapar a cara com as mãos, mostrando (exteriormente) uma emoção que, no fundo, é reservada e interior.
Um olhar - um simples olhar - seria muito mais eficaz...
Isto vale para o mal e para o bem:
O actor pode sentir que "não está a passar nada", ou que "toda a gente está a topar" que ele está nervoso, ou ansioso. Pode sentir que, por mais que não queira, está a despachar o texto, como se quisesse sair do palco mais cedo e acabar com tamanha ansiedade. Pode sentir que tudo corre mal... e o público, na realidade, estar absolutamente vidrado e deliciado com o que vê. O que o actor sente, ou deixa de sentir, muitas vezes, é irrelevante para o produto final. E o público pode muito bem adorar um espectáculo que, a nós, correu mal como o caraças.
Por que é que digo isto? Porque o teatro (neste caso, a
stand up) não é pensado para agradar ao intérprete. Isso é importante, mas secundário. O público é que é o destinatário da mensagem, o centro do processo. Sem público, não há teatro.
E também digo isto por ter sentido que o espectáculo de hoje/ontem/quinta me
correu mal. A mim, parecia que tudo estava a sair ao lado. A Susana, aliás, achou o mesmo. Conhecendo-me bem, detectou o meu nervosismo e deixou-se contagiar sem querer. A ela, também correu mal. Estávamos - sem razão aparente - a sentirmo-nos a caminhar sobre brasas.
O que é engraçado é que,
para quem viu da plateia, foi dos melhores espectáculos de sempre. Havia gente que já tinha visto uma e duas vezes, que pura e simplesmente gostou ainda mais que nas primeiras experiências. O balanço de quem viu foi de que Cromo Sapiens está mais solto, mais fluído e mais divertido que nunca!
"Estavas nervoso? Não parecias nada!"
E atenção, estamos a falar de amigos que não se prestam a mentir por caridade. Se não tivessem gostado, não teriam papas na língua em dizê-lo...
É interessante, não é? No fundo, o nosso balanço de um espectáculo é só mais um e nem é o mais importante (E hoje felizmente que assim foi).
ESTEVE ESGOTADO, MALTA! OBRIGADO!
AMANHÃ, SEXTA, JÁ ESTÁ ESGOTADO.
SÁBADO, 29, ÚLTIMO DIA, AINDA HÁ ALGUNS BILHETES. SE QUISEREM IR, NÃO PERCAM TEMPO. É APROVEITAR! O CROMO ESTÁ A ESGOTAR!
(Esta rima foi muito pobrezinha, digo eu: mas vocês é que sabem)
Seja como for, em termos de pregões, nada bate o célebre:
"É quinhentos, freguezééééquenhentooos!"
Ena, ena! Tantos portistas!
O Porto ganhou a Liga dos Campeões. E está de parabéns. De certa forma, todos nós (os que torcemos pelo Porto) estamos. Mas isso não nos deve fazer esquecer um conjunto de coisitas, que apesar de desagradáveis, nem por isso deixam de ser verdadeiras:
O Porto não é a melhor equipa da Europa. Com uma pitada de bom senso, é fácil perceber que, mais do que talento bruto, ou génio; teve muita garra, concentração e coesão interna. Talvez seja uma das equipas mais bem geridas e treinadas do Mundo, mas não é (estruturalmente) melhor que o Manchester United, o Real ou o Barcelona. Atenção! Não ser "a melhor" não lhe tira mérito, pelo contrário! Prova que a sorte só sorri a quem a procura e merece. Prova que a dignidade de um clube de média dimensão pode pesar mais que os milhões dos clubes galácticos. Mostra que a humildade pode valer mais que a arrogância. E lembra que o futebol, de facto, é um jogo em que há 11 para cada lado e em que tudo pode acontecer.
O Porto está de parabéns porque soube ultrapassar equipas que lhe são superiores. Esperemos que não perca (em Portugal) a humildade que o tornou grandioso lá fora. É que já comecei a ouvir declarações bombásticas e pretensiosas de muita gente do Porto. Hoje têm direito a excessos. Mas é hoje.
Somos todos do Porto? Por um dia? Olha que bonito! Olha que fácil!
Somos todos do Porto no dia em que o Porto é campeão da Europa? De repente, deu-nos a todos para sermos tripeiros? E se tivesse perdido, o Porto continuava a ser o nosso orgulho colectivo? A derrota também era de todos?
"O Porto merece tudo! Somos todos filhos do Dragão! Viva o Pinto da Costa!"
Olha, que carago!? Então, mas o desporto favorito em Portugal, mais do que o futebol, não é justamente dizer mal do FCP? E do Pinto da Costa? E dizer que eles só ganham porque os árbitros estão comprados? E os árbitros da Liga dos Campeões, esses não estão comprados? E a equipa, agora é o máximo?
Devo ser eu, que tenho tendência para embirrar com tudo.
Eu sou do Sporting. E hoje também sou do Sporting. Torci pelo Porto, mas não sou adepto do Porto. E se torci por eles, foi porque achei que eles mereciam, e pelos amigos que tenho que são do Porto.
Tento olhar para estas coisas com algum distanciamento (por muito que possa vibrar com o jogo) e não me consigo esquecer de imagens e situações que põem a nu a hipocrisia que está por baixo desta euforia colectivo/tripeira.
Conheço gente que, mais do que ser do Benfica, é anti-Porto.
Conheço gente que, mais do que ser do Porto, é anti-Benfica.
Conheço gente que, mais do que ser do Sporting, é tão indigente como a gente dos dois exemplos acima.
Vi gente que foi à Alemanha (em autocarros) com cachecóis a dizer "Benfica=Merda". Olha que linda maneira de difundir e prestigiar a imagem de Portugal! Olha que grande amor que eles têm pelo Porto! Vamos abraçar-nos?
E os jogos da Liga Portuguesa! São um exemplo de
fair play, como é sabido: os insultos ao guarda-redes em todos os pontapés de baliza... O árbitro (e a mãe dele) a serem enxovalhdos por milhares de pessoas... As claques com cânticos neo-nazis e invasões de campo... Os dirigentes (sobretudo o Dias da Cunha) a passarem o ano a chorarem os pontos que lhes foram alegadamente roubados, em vez de resolverem os problemas nos seus clubes...
Se o futebol português é o que é, a culpa é de nós todos, que não o sabemos viver e jogar. Que perdemos a capacidade de saborear a beleza daquele bailado. Que só nos lembramos do árbitro quando ele nos "rouba", mas que achamos normal e salutar que "roube" o adversário.
O Porto e os portistas estão de parabéns. Mereceram a felicidade que estão a ter hoje. Mas não me venham dizer que somos todos portistas! Se queremos ser um povo tão porreiraço e fraterno, então é tempo de começar a mudar a nossa maneira de encarar o jogo.
Hoje é fácil sermos "civilizados"? OK.
E que tal começar a sê-lo também nos outros 364 dias do ano?
(É só uma ideia)
PS 1: Os clubes de hoje não são o que eram há vinte anos. As equipas, por mais mística que tenham, não são o espelho de um país: a título de exemplo, pense-se nos autores dos três golos: Todos jogadores portugueses? Não! Só um deles, o Deco...
PS 2: Já que se fala em bola. Tenho uma coisa para anunciar. Não é nada agradável, mas não consigo deixar de pensar nisto: Malta... É assim... Eu sei que ninguém quer ouvir isto... Mas a verdade... (desculpem-me pelo sacrilégio!) É que no Euro... Talvez... Portugal não ganhe...
NOVIDADES
Lembram-se de dizer que ia renovar o site? Novas cores, mais informação, etc e tal? Agora já está! Para comemorar as
3000 visitas ao blog, e as (quase)
1000 visitas ao site, já posso mostrar a nova cara do meu site oficial. Vejam, critiquem e comentem.
Basta
CLICAR AQUI.
Nota: podem escrever como sempre fizeram: www.miguelbarros.4t.com ou ir directamente a www.miguelbarros.web.pt
PS 1: Força, FCP!
PS 2:
Há mais novidades a caminho...
Tenho dupla personalidade!
...pelo menos, o meu site tem!
Pois é! O meu site está todo marado!
Não há almoços grátis, costumam dizer os americanos... E com razão!
Registei o meu site na
freeservers.com, onde alegadamente, se podia ter sites gratuitamente...
Está-se mesmo a ver que não era tão simples como isso! Na realidade, só é grátis se um tipo não se importar de ter publicidade a jorrar em tudo quanto é página.
Claro que se pode optar por não ter publicidade... Desde que se pague!
Lembram-se de eu falar que vinham aí novidades? Pois uma delas era a nova imagem do meu site: com outras cores, mais dinâmico e com novas possibilidades de uso.
Mas o processo de actualização correu mal.
Se forem ao site agora (algo que eu não recomendo, a menos que sejam masoquistas ou que tenham um estranho sentido de humor) verão que está todo desalinhado, com as cores trocadas e com publicidade em todas as páginas! Simpático, não é? Não. Simpático é o Totta. Em poucas palavras:
Não vão ao site. Está mesmo em obras!.
Mas
nem tudo são más notícias: se quiserem aceder a uma morada provisória que o Tiago criou para o site (e onde podem ver as coisas como deve ser) então, cliquem
AQUI.
O que significa que agora tenho 2 sites, uma verdadeira dupla personalidade informática.
Quem tem amigos, tem tudo
Hoje à tarde, a Susana chamou-me a atenção para um conceito interessante: à medida que o tempo passa, torna-se cada vez mais difícil fazer amigos. No princípio, na infância, é extremamente simples: "Tens uma camisola igual à minha? Vamos ser os maiores amigos!" "O teu super-herói favorito também é o Homem Aranha? Vamos ser os maiores amigos!"
Depois, essa inocência passa e fica complicado chegar à amizade profunda. Ficamos mais desconfiados, mais cínicos, mais esquisitos. Pedir o telemóvel a alguém que se acaba de conhecer (só porque há uma grande empatia) parece quase sempre, uma frase de engate. Além disso, o tempo não ajuda nada. Afasta as pessoas, muda-lhes o feitio e os interesses. As profissões também desajudam, absorvem-nos e formatam-nos o pensamento. A amizade tem que ir sendo "regada". Hoje (Domingo) reguei um pouco uma grande amizade. Com cerveja. O João Alfredo (amigo desde a primária e padrinho do casamento e da Maria) desafiou-nos para uma
caracolada. Ele e a Joana (a namorada) encontraram-se connosco e fizemos um festim à frente de dois pratos de caracóis (a malta do Norte que lê o blog deve estar completamente enojada, mas é preciso ser "mouro" para perceber o sublime requinte de comer um caracol. Um? Muitos! Uma barrigada deles!
Depois, fomos desafiados a ir jogar
playstation. NOTA: Usei o plural, mas na prática foi assim: o João desafiou-me para jogar
playstation.
Eu não tenho
playstation em casa. E por uma razão muito simples: auto-controlo. Eu já me conheço, malta! Se comprasse uma, a minha vida acabava ali. Sou viciado em tudo o que seja aquele tipo de jogos e nunca sei quando é a altura de parar. Comprar uma
playstation seria a decadência total: primeiro, deixava de trabalhar, depois o
blog e outras actividades deixavam de fazer parte da minha vida. Por fim, tornava-me um pai e marido negligente e indiferente. Deixava de dormir, comer e, por fim, de tomar banho.
Seria encontrado, daqui a muitos anos, qual eremita, com uma enorme barba, enterrado no meio de uma montanha de caixas de pizza, com os polegares sobredimensionados e uma expressão alucinada, a repetir: "Só mais um! Se eu jogar mais um, chego ao Recorde!".
Claro que jogámos até às duas e meia da manhã. Tanto a Joana como a Susana adormeceram (elas têm mesmo paciência para nós...). No fim, eu e o João só pensávamos: temos que repetir isto! Mas a sério, noite dentro, até ao raiar do dia! E sem elas!
É bom desligar o cérebro de vez em quando...
Por falar em cérebros desligados...
...dei por mim a ouvir o discurso do Durão Barroso no Congresso do PSD. Os políticos são engraçados quando falam em congressos e em comícios, porque sabem que a plateia está com eles, de forma amorfa e acrítica. Às tantas, pensei que, se espalhassem tomates pela plateia e deixassem entrar alguns dos 500.000 desempregados do país, aquilo seria bem mais interessante. Infelizmente, não têm tomates para isso.
O nosso Primeiro Ministro está a ficar muito previsível e aborrecido. A gente já sabe que a culpa é do PS. A gente já sabe que o PSD é muito melhor. A gente já percebeu que, sempre que elegemos políticos de esquerda somos burros e é asneira certa. A gente já percebeu que o PSD nunca devia ter saído do Poder, afinal, nunca fez asneiras. O povo é que é estúpido e decide, de vez em quando, mudar de governo (mas isso é porque os portugueses são mesmo burros e não estão à altura desse grande Partido Iluminado que é o PSD). "Deus nos livre de ter outra vez os Socialistas no Poder!" disse a Manuela Ferreira Leite e com toda a razão. "Deus nos livre da Democracia" acrescento eu, imbuído desse mesmo espírito humilde que a norteia sempre nos seus actos.
Aquela conversa do PM lembrou-me uma história engraçada (que dizem ter acontecido mesmo, mas isso é o menos):
Na antiga URSS, o Secretário Geral do PC (Chefe do Partido e do Governo) mudava, ciclicamente. Numa dessas transições, o Secretário Geral em exercício, antes de passar as pastas para o seu sucessor, disse-lhe: "Isto é muito simples. Deixo-lhe aqui, sobre a secretária, dois envelopes. Quando começar a ver que as coisas lhe estão a correr mal, abra a primeira carta e vai ver que tudo se resolve".
"E nunca mais tenho problemas?" perguntou o mais novo.
"Claro que terá. É uma questão de tempo. Mas quando isso acontecer outra vez, quando vir as coisas a fugirem do seu controlo, quando recomeçarem as críticas à sua pessoa, então é altura de abrir a segunda carta."
Despediram-se educadamente e a conversa ficou por ali.
O novo líder não deu muita importância à conversa das cartas. Mas, ao fim de alguns meses, começou a contestação ao seu governo tanto no Partido, como nas ruas. As pessoas estavam insatisfeitas e falava-se já em crise. Vendo a coisa tremida, lembrou-se das cartas. Abriu a primeira, que dizia, tão simplesmente:
"
Culpe-me a mim de tudo o que esteja a correr mal." O Secretário Geral sorriu e assim fez. Na rádio e na TV, todos os seus discursos começaram a apontar baterias ao seu antecessor: "A culpa é toda dele!" "Tenho uma pesada herança para gerir!" "Ele fugiu e deixou o caos!" "Eu bem quero fazer as coisas, mas tenho que andar a limpar a porcaria que ele deixou para trás!" "Ele deixou isto um pântano!", etc..
As críticas acalmaram. E o nosso Secretário Geral ficou contente da vida...
Mas o tempo passou e voltaram os problemas: já ninguém engolia a conversa de que a culpa era do outro. A vida estava cada vez pior. Já era de tempo de deixar de usar desculpas esfarrapadas e começar a resolver os problemas!"
O Secretário Geral viu o mar mais alto que a terra e, no dia em que um jovem ambicioso do Partido exigiu uma mudança de caras (pondo-o a ele próprio em causa), decidiu pegar na segunda carta. Sorridente, expectante, confiante, abriu a segunda carta, que dizia, tão simplesmente:
"
Sente-se e escreva duas cartas".
Cá para mim, o Zé Manel já "leu a segunda carta" há bastante tempo, mas continua a tentar fazer render a primeira.
O Mundo está a dizer basta!
O meu pai disse-me que eu estava a transformar o
blog numa espécie de diário do espectáculo e a perder a ideia inicial de comentar a actualidade. Disse que isto estava muito pessoal, até íntimo, e que os leitores não querem saber disso para nada. E o meu pai, reconheço-o, tem toda a razão. Por isso, vou falar do espectáculo de hoje e de mim próprio:
CASA CHEIA, À PINHA, A ABARROTAR! Público muito fixe! Bom ambiente! Não usei a cábula e o espectáculo ganhou com isso: tive que me soltar, improvisar e usar os índices máximos de concentração. A semana terminou em grande.
A Susana tem sido extraordinária comigo. Além de me aturar diariamente (o que já é, por si só, uma tarefa hercúlea) é uma enorme fonte de humor, segurança e cumplicidade ao longo do
Cromo Sapiens.
Mas o meu pai tem razão (e sentido de humor: compreende esta brincadeira de fazer o oposto do que sugeriu). Aqui vai um texto de encomenda:
Há dias felizes (O Mundo está a dizer basta!)
Após o espectáculo, eu e a Susana viemos de carro para casa e ouvimos o noticiário das 4 da manhã na TSF (que é boa para um gajo andar informado, mas está a passar música abaixo de cão - não sei se já repararam). E as notícias deixaram-nos a ambos com um sorriso no rosto.
Um dos meus gurus e referências,
Michael Moore, foi galardoado com a
Palma de Ouro em Cannes. Quentin Tarantino (outra referência minha e presidente do júri) anunciou-o a plenos pulmões e cheio de entusiasmo. Há 48 anos que um documentário não recebia tal distinção, mas a excepção justifica-se plenamente. Michael Moore,
enfant terrible do cinema norte americano (e prova viva de que há americanos inteligentes) notabilizou-se com o seu primeiro documentário "
Bowling for Columbine", onde fazia um retrato cruel, mas realista, da sociedade americana: militarizada, agressiva, racista, paranóica e cada vez menos livre, apesar do chavão que continua a projectar pelo mundo. Um aparte: trata-se de um filme obrigatório. Se não viram, façam por isso!
Em
Bowling for Columbine, Moore ataca tudo, desde a poderosíssima
National Rifle Asociation (do
lobby pró-armamento e pela total liberdade de uso e porte de arma), passando pelos sucessivos governos americanos, e pela postura de permanente confrontação dos EUA no plano internacional. O filme é um documento brilhante e valeu-lhe, na altura, a consagração como autor e realizador de qualidade. Mas isso não basta para se ter sucesso (pelo menos na suposta terra da Liberdade). E
Moore pagou a factura: Este mais recente projecto "
Fahrenheit 911", que recebeu hoje a Palma, retrata os laços promíscuos da família
Bush com as famílias terroristas da Arábia Saudita; põe a nu os interesses económicos dos Bush e da respectiva administração e explica, sem reservas nem pudores, as reais causas desta guerra com um indelével cheiro a petróleo.
Moore explicou que o seu objectivo assumido era abrir os olhos aos americanos e influenciar as eleições de Novembro no seu país. Mas não basta ser génio (e muito menos irreverente) para se ter tapetes vermelhos estendidos à nossa frente. Todas as distribuidoras principais lhe disseram que sim, senhor, que ele era muito bom.
Mas também todas lhe negaram a distribuição do filme nos principais circuitos de salas de cinema nos EUA. Porquê? Porque não queriam polémicas e porque a Casa Branca anunciou que isso teria "consequências". Nos EUA temos toda a Liberdade, desde que seja para fazer aquilo que nos mandam...
Mas o Mundo já está farto. O que em Cannes foi dito mostra que já não pode haver tolerância nem contemplações para com o neofascismo que se avista no horizonte. Estamos fartos de Guerras, de fundamentalismos, de ver o nosso medo ser instrumentalizado (já repararam naqueles avisos, nos EUA, de que o nível de alerta vai passar a laranja, ou vermelho? Nunca se consumou nenhuma das ameaças terroristas anunciadas, serviram apenas para manter o pessoal na América cheio de medo), estamos fartos das humilhações, do racismo e do despotismo que vem do outro lado do Atlântico. E queremos mostrá-lo aos americanos (porque o comum americano não é o mau da fita, é uma vítima de manipulação). Queremos que o
Bush caia!
E não é que caiu mesmo?
Deus castiga. Outra notícia que deu na TSF, foi a de que
George W. Bush foi passear de bicicleta BTT para o seu rancho. E deu um tralho monumental! Espalhou-se! Infelizmente, levava capacete, mas mesmo assim, ainda ficou com uma série de "arranhões e feridas benignas".
Concordo. Tudo o que sejam feridas que ele sofra, serão sempre benignas. Boas e úteis, mesmo que poucas!
Além do gozo pessoal que a notícia me deu, há um dado relevante: os americanos são muito dados a simbolismos. E a queda desamparada do homem mais poderoso do Mundo, dá-lhe um lado frágil e humano que não bate certo com o discurso macho-man-protegido-por-Deus-estou-do-lado-dos-bons que ele não se cansa de apregoar.
E eu também gosto de simbolismos. Nós também tivemos, em Portugal, um fascista cuja queda política começou com uma queda literal (caiu da cadeira). Sou agnóstico, mas há dias em que até dá vontade de acreditar que estas coisas não acontecem por acaso. "Deus castiga"...