Seja bem-vindo quem se vier por bem
Mãe há só uma
Nestes dias de saudável loucura futebolística, quem frequenta a blogosfera, já percebeu que as três ou quatro pessoas que não estão a escrever sobre o Portugal-Grécia (esses três ou quatro
freaks intelectualóides anti-patrióticos) optaram todas por pegar nos óbitos mais recentes.
Ontem, mal acabo de escrever o texto do Brando, ligo a televisão e... Pimba! Mais uma!
Morreu a Sophia de Mello Breyner, grande poetisa e mulher de enorme sensibilidade.
Não vou discorrer muito sobre a obra de Sophia, até porque, confesso, seria cínico da minha parte fazê-lo, sem recorrer aos clichés típicos destas situações. Além do mais seria estúpido, porque eu não sou conhecedor profundo da obra dela (o que não impediu muitos comentadores de se lançarem em grandes discursos sobre o tema).
Decidi pegar na coisa de outro prisma.
O Miguel Sousa Tavares era filho da Sophia de Mello Breyner. Desde ontem, perdeu a mãe.
Gosto bastante do Miguel Sousa Tavares. É alguém que não se inibe de dizer o que pensa, alguém que põe o dedo na ferida, um tipo aguerrido e intenso, que tem prazer em discutir. É um autor atento e rigoroso, seja nas crónicas semanais do Público, seja no romance (área onde parece estar a dar-se bem). Mais: é o único ser humano vivo que conseguiu pôr a Manuela Moura Guedes na ordem (numa célebre altercação que teve com a senhora na TVI - e é de lembrar que ele estava a jogar fora de casa).
Não me posso esquecer de dizer isto: gosto do seu discurso politicamente incorrecto contra o fundamentalismo anti-tabágico. Gosto dele. E hoje gosto ainda mais um bocadinho, porque sei que está a sofrer.
Quando morre "um dos nossos maiores", é frequente o discurso pateta da "perda irreparável para o país", "o país fica mais pobre", etc..
Essa verborreia toda faz-me confusão. Afinal, a obra de quem morre fica, pronta a ser estudada, apreciada, divulgada. Afinal, não sabemos se a morte dela, no caso concreto, foi inesperada e dolorosa ou, se surgiu, ela própria, como um alívio merecido (e ao que tudo indica, sim. Ela estava internada há meses). No fim de contas, discurso oficial à parte, quem está realmente de luto é a família. E é para ela que foram os meus pensamentos. As pessoas não deviam ter que sofrer. Muito menos, pela perda das pessoas que lhe são queridas. Mas as coisas são mesmo assim. Resta-nos pensar nas pessoas que perdemos, lembrá-las e sorrir. Sempre que o fizermos, elas continuarão vivas. Em nós. Tal como um dia, nós mesmos seremos lembrados por alguém, que sorrirá com isso. É o nosso quinhão de imortalidade.
De Miguel para Miguel,
Um Abraço
Morreu Marlon Brando
Morreu hoje um dos melhores actores de todos os tempos. Um dos primeiros actores a dar nas vistas pelo naturalismo e carisma do "Método Actor´s Studio" (como de
Niro,
Dean ou
Al Pacino),
Brando deixa uma enorme variedade de registos para estudar e apreciar.
Não morreu precocemente, tinha oitenta anos. Oitenta anos milionários e bem intensos nas costas. Trágica foi, não a sua morte, antes a sua vida. Com um filho homicida e uma filha suicida, Brando não teve um caminho fácil e a sorte e talento que o acompanharam como actor (por vezes desperdiçado em papéis fracos e filmes de segunda) abandonaram-no completamente em dias de vida. A sua última vertigem pessoal era o consumo mórbido e desenfreado de
junk food. A sua morte, a morte de alguém que já não gostava de si mesmo, era previsível. Não por se tratar dele, mas porque a morte é sempre previsível: basta estar vivo. Aliás, tenho uma má notícia para vocês: Vamos todos morrer. Isso é inevitável. Não lamentamos uma inevitabilidade.
Morreu um homem. Celebre-se o mito!
Ironias
Lembram-se do último grande congresso do PSD? Não estou a falar daqueles congressos mais recentes e soviéticos de consagração do "Grande Timoneiro". Falo daquele em que Durão e Santana disputaram a liderança do PPD/PSD.
Alguém se lembra de como Durão descreveu aquele que, ao tudo o indica, será o nosso próximo Primeiro-Ministro?
Durão: "
Santana Lopes é uma espécie de cruzamento entre o Zandinga e o Gabriel Alves!"
Mas agora não. Agora, Santana é o homem certo para chefiar os destinos do país...
DESAFIO CML DA SEMANA:
Continua o desafio que lancei num dos últimos
posts:
Dão-se alvíssaras a quem conseguir lembrar-se de alguma coisa que Santana tenha prometido fazer e que, efectivamente, tenha feito. Qualquer coisinha serve. Qualquer coisinha! Não há-de ser difícil!
Como concorrer? Basta ir ao sistema de comentários e enumerar a/s promessa/s cumprida/s nestes 3 (!) anos de mandato à frente da CML. Boa sorte!
Impróprio para consumo
Esperei até à última para ver se ainda me aguentava, mas não. Tenho pena, até porque havia público (apesar do jogo!), mas não estou em condições de fazer o espectáculo hoje.
Como previsto, volta a haver CromoSapiens no Teatro Trindade nos dias 14 e 21 de Julho.
Um abraço e as minhas desculpas.
Um texto diferente
Hoje não vou falar de eleições, nem de futebol, nem de questões políticas. Também não vou fazer um daqueles textos pretensamente engraçados. Excepcionalmente, hoje vou falar de mim. E, mais excepcionalmente ainda, vou ser breve.
Estou doente: tenho os pulmões todos atacados, tosse de cão, pingo no nariz, expectoração, dor de cabeça, mal estar geral, brucelose, hipocondria, doença das vacas loucas, PSD e dores pelo corpo todo. E estou mesmo chateado com isto, por isso, à lista de sintomas, podem acrecentar que estou com a neura.
Hoje (quarta feira) tenho muitos contactos para fazer, coisas para tratar e, o que é mais chato: tenho espectáculo, e ainda não sei se estarei em condições.
Vou dormir. Estou mesmo muito cansado. Já começo a torcar as lteras todas. Tenho songffdddddddddddd.
O PÂNTANO
Pois é. Para quem tivesse dúvidas de que o Pedro Santana Lopes não tem perfil para Primeiro-Ministro, elas esbateram-se. O homem (e os que o seguem) não se aguenta quietinho. Foge-lhe o pé para o chinelo.
Por que é que estou com esta conversa? Vamos por partes:
O Presidente da República sempre
disse que os mandatos eram para levar até ao fim. E quatro anos são quatro anos. Nesse sentido, tudo indica que não tinha alternativa a aceitar a saída do Durão e assinar por baixo, no que toca ao Santana, como sucessor. O único
problema é que o Sampaio conhece Santana Lopes e, atrevo-me arriscar, sabe bem que ele não é a pessoa indicada para o cargo. Sabe, também, que Santana, em vez da contenção orçamental de Durão (o único mérito do Governo de Durão, diga-se) vai perder os próximos dois anos do mandato a esbanjar, gastar, distribuir e seduzir, numa de "pão e circo" os portugueses, a ver se consegue a reeleição, em 2006. Não sou eu que digo isto! Reparem que a Manuela Ferreira Leite (de quem não gosto e com quem muitas vezes estou em total desacordo, mas que reconheço ser uma pessoa honesta e bem intensionada) reuniu imediatamente com os seus Secretários de Estado para se despedir deles. Ela sabe bem que os tempos que se avizinham não são de honestidade e rigor orçamental, por isso, não vai ficar. Nem quer. Foi ela que disse (não fui eu) que o Santana não tem legitimidade para o cargo, assumindo que se estava a preparar "
um golpe de estado no PSD."
O que ela não percebe (porque também só vê as coisas pelo prisma que lhe interessa) é que
o golpe de Estado não é no PSD. Pelo menos, não é
só no PSD.
É no país inteiro. A Manuela também, não é propriamente um expoente de democracia... "Deus nos livre de ter outra vez o PS no poder!" (Para ela, era PSD para sempre, como em todas as saudáveis democracias de partido único...)
Adiante...
Seja quem for o novo PM, venha quem vier, será sempre alguém que tem menor (ou nenhuma) legitimidade política. Alguém fragilizado, não formalmente, mas em termos de substância.
O PSD fala muito em assegurar a estabilidade, mas um governo frágil, chefiado por um demagogo imaturo como Santana não é garantia de estabilidade.
Exercício mental... (Para mudar de assunto)
Pense em Santana Lopes. Pense em CML. Agora, veja lá se se lembra de uma coisa, qualquer coisa, uma só, que Santana tenha feito de importante na CML nestes
três anos de mandato.
(...)
É impressionante, não é? Ele tem mesmo obra: O casino, o Parque Mayer, o Túnel, a nova Catedral de Lisboa...
and so on... Podem ser obras virtuais, mas não deixam de ser obras por isso. Ele está sempre a obrar!
Em que é que ficamos? Estamos a falar do regresso ao pântano. O tal pântano de que "pretensamente" Durão nos queria safar... Afinal, agora empurra-nos para dentro dele com um sorriso nos lábios.
Só uma coisa... Por que é que eles estão com tanto medo de eleições? O Santana não era o máximo? Não era ele que ganhava tudo? Não seria melhor ele sentir-se legitimado no governo? Ou será que estão apenas agarrados ao poleiro? O homem é um Santana!
ESTÁS CONVOCADO PARA A MANIF (escolhe tu qual)
Amanhã vamos ter não uma, mas duas manifs. Uma contra a nomeação de Santana e pedindo eleições antecipadas... E a outra, manifestando apoio total a Santana, e exigindo a não realização de eleições. Ambas vão ser no mesmo sítio, nos jardins em frente ao Palácio de Belém. ambas serão às 19.00.
Aqui volto à ideia inicial deste texto. Quem tivesse dúvidas, pode deixar de as ter. Lopes é capaz de todo o tipo de Santanices, mas não prima pela inteligência. A única forma de Sampaio convocar eleições é se perceber que a instabilidade de não as convocar seria maior. Se houver "tranquilidade", mesmo que o Presidente queira, não avançará para eleições.
Só se Santana fizer uma grande asneira é que poderá perder o pássaro que já tem na mão. Só se mostrasse que é mesquinho, agarrado ao poder, e desprovido de sentido de estado. A Santana, o que mais lhe convinha era mesmo ficar quietinho...
VAI DAÍ, TIPO DITADOR SUL AMERICANO, CONVOCA UMA MANIF A SEU FAVOR, À MESMA HORA E NO MESMO SÍTIO QUE A OUTRA!?
Para quê? Para ter confrontos? Para mostrar que o "povo o ama"? Para mostrar que está à altura?
Seja qual for o seu objectivo, é inevitável qure o tiro lhe saia pela culatra (até na hipótese também possível de não aparecer ninguém, como na outra manif que ele auto-convocou para se auto-aclamar na CML, lembram-se?).
Não haja dúvidas... Estamos enterrados no pântano até ao pescoço! Obrigado, PSD!
Termino com um dos slogans da manif de domingo:
"Sampaio, ó pá... Eleições já!"
Transamericana: Solidariedade sem tretas
Joana e Andrea são jovens e querem mudar o Mundo. É por isso que aderiram a um estilo de vida generoso, mas arriscado. Fazem trabalho missionário na América do Sul, na África subsaariana... onde for preciso.
São gente de muitos projectos. E projectos que vale a pena abraçar.
Recusam o discurso da "caridadezinha"; recusam a ideia de que os pobres são "todos bonzinhos", recusam a ideia de que "os pretinhos" e os "indiozinhos" sejam menos do que nós. À maneira deles, Joana e Andrea são revolucionários. Só têm um defeito, mas dá para passar por cima disso: são ambos católicos.
E, mesmo assim, Joana e Andrea, casaram! E pela Igreja católica! Como é que conseguiram? Meteram uma cunha ao Papa?
Não!
Andrea, apesar de ter nome de gaja, é um italiano.
Fora de brincadeiras, vale a pena conhecerem o trabalho deles.
É já ali à direita, no link "SOLIDARIEDADE SEM TRETAS".
Ide ver, meus amigos. Ganhai o Céu.
Um homem de sorte
Sou um homem de sorte. Agora que estou a fazer os espectáculos às quartas feiras, já tive sessões em dias de jogo e, particularmente, em dias de jogo da selecção. O Portugal-Rússia foi um deles, mas não o único.
E agora estou preocupado. Parece que a semi-final Portugal-Holanda também vai ser a uma quarta feira, em dia de espectáculo (30 de Junho). E isto deixa-me preocupado porquê?
Porque não quero estar a roubar espectadores à selecção. É importante que toda a gente dê o seu apoio, e eu não queria que o estádio ficasse às moscas por causa do Cromo Sapiens desta semana.
Contudo, já me tranquilizaram. Como o espectáculo começa às 22.30 (e talvez atrase, até, um bocadinho...) as pessoas poderão ver o jogo e ir ver o espectáculo. Já fico mais descansado. A selecção vai contar com o apoio de todos.
A mulher fala esperanto!
(Hoje, excepcionalmente, não vou falar de política)
É tempo de esquecer "A portuguesa". Isso já faz parte do passado.
Eis o novo hino nacional da autoria da luso-canadiana
Nelly Furtado (coloco a letra toda para as pessoas que não percebem português). Se querem ser bons portugueses, aprendam-no e cantem-no orgulhosamente todos os dias, logo após as orações matinais.
Nelly Furtado - Fohr-sar
It is the passion flowing right on through your veins
And it's the feeling that you're oh so glad you came
It is the moment you remember you're alive
It is the air you breathe, the element of fire
It is that flower that you took the time to smell
It is the power that you know you got as well
It is the fear inside that you can overcome
This is the orchestra, the rhythm and the drum
Cómumaf órça, Cómumaf órça
Cómumaf órça kei nehn-guim paude pahrá
Cómumaf órça, Cómumaf órça
Como uma fome kei nehn-guim paude matá
It is the soundtrack of your ever-flowing life
It is the wind beneath your feet that makes you fly
It is the beautiful game that you choose to play
When you step out into the world to start your day
You show your face and take it in and scream and pray
You're gonna win it for yourself and us today
It is the gold, the green, the yellow and the grey
The red and sweat and tears, the love you go. Hey!
Cómumaf órça, Cómumaf órça
Cómumaf órça kei nehn-guim paude pahrá
Cómumaf órça, Cómumaf órça
Como uma fome kei nehn-guim paude matá
Fohr-sar! Fohr-sar! Fohr-sar! Fohr-sar!
Closer to the sky, closer way up high, mais perto do céu, mais perto do
céu!
Cómumaf órça, Cómumaf órça Fohr-sar! Fohr-sar! Cómumaf órça kei nehn-guim
paude pahrá Fohr-sar! Fohr-sar! Cómumaf órça, Cómumaf órça Fohr-sar!
Fohr-sar! Como uma fome kei nehn-guim paude matá Cómumaf órça, Cómumaf órça
Cómumaf órça kei nehn-guim paude pahrá Cómumaf órça, Cómumaf órça Como uma
fome kei nehn-guim paude matá Cómumaf órça, Cómumaf órça Fohr-sar!
Fohr-sar!
Cómumaf órça kei nehn-guim paude pahrá Fohr-sar! Fohr-sar! Cómumaf órça,
Cómumaf órça Fohr-sar! Fohr-sar! Como uma fome kei nehn-guim paude matá
Fohr-sar! Fohr-sar! Fohr-sar! Fohr-sar! Fohr-sar! Fohr-sar! Fohr-sar!
Fohr-sar! Tau grandy, Tau forty, come on!
(Quanto é que nos terá custado a todos, esta encomenda? Para quem não saiba, a
Nelly faz-se pagar bem...)
Obrigado, Joel Pinto, que me enviaste esta pérola!
Estás convocado!
Concentração (quase) espontânea de gente de bem, para se manifestar contra a possibilidade de o Presidente da República não convocar eleições antecipadas.
LOCAL: Jardins de Belém (frente ao Palácio)
HORA: 19.00
Aparece, traz amigos, aproveita e come uns pastéis de Belém ali, ao lado!
Divulga esta informação.
IMPORTANTE: Escrevi a seguir um texto chato para caraças (mas que acho que vale a pena ler... Se eu não gostar de mim, quem gostará?) Leiam-no, comentem-no critiquem-no... Há tanto tempo que não tenho comentários vossos. Tenho saudades. Snif...
O que é a Democracia?
Segundo
Churchill, é "o pior de todos os sistemas, se excluirmos todos os outros".
Em traços gerais, as democracias são sistemas em que é o povo (a maioria) que tem a palavra nas principais decisões sobre o futuro do seu país.
As Democracias podem ser directas, semi-directas e representativas. Nas democracias directas, é a maioria dos cidadãos que decide sobre praticamente todos os assuntos, a toda a hora. Todas as decisões são sufragadas pela vontade popular. Dado o elevado número de decisões que é necessário tomar, as democracias directas são difíceis de encontrar. É esse, por exemplo, o sistema adoptado por alguns cantões suíços, em que o povo, na praça, define o rumo a seguir a cada momento.
As Democracias Representativas assentam na ideia de que o povo elege os seus representantes (que se vincularam previamente a um conjunto de medidas e posturas, naquilo que é o seu programa eleitoral) para que estes possam decidir por todos, a cada momento, mas sempre em conformidade com o programa e os princípios a que se comprometeram. Passado um prazo, o povo é, novamente, chamado a eleger os seus novos representantes.
A Democracia semi-directa (o nosso sistema, em Portugal) permite aos eleitos decidirem (de acordo com o programa de governo) mas também permite que o povo se pronuncie (vinculativamente) sobre certos assuntos, através de um instrumento que se chama referendo e que, em Portugal, raras vezes foi usado.
As Democracias podem, ainda, ser absolutas ou liberais. As Democracias absolutas (que descambaram sempre em regimes ditatoriais) funcionam de acordo com esta premissa: a maioria manda sempre, sobre tudo e em limites que apenas a própria maioria define. Em última análise, se a maioria das pessoas decidir perseguir, expropriar ou matar uma minoria, numa democracia absoluta, tem esse direito. Nas democracias liberais, pelo contrário, as minorias também têm direitos, e há limites que nem mesmo a maioria da população pode pisar, como sejam a liberdade de pensamento, de associação, de constituição de partidos, etc..
Portugal é, portanto, uma democracia semi-representativa liberal.
Grande seca, esta introdução, não é?
It gets worse...
Nas eleições legislativas, os portugueses votam em listas de pessoas, designadas pelos partidos. Em função dos resultados, são eleitos 230 deputados à Assembleia da República. A distribuição proporcional dos votos pelos partidos faz com que, na Assembleia, se formem maiorias. A maioria (de um Partido, ou de vários partidos coligados) propõe ao Presidente da República que nomeie o seu líder para formar governo. Foi isso que aconteceu, aliás, nas últimas eleições legislativas: O PSD ganhou ao PS (por pouco, mas ganhou); para ter maioria, aliou-se (após as eleições) ao PP e, já coligado, pediram ao Presidente que nomeasse Durão Barroso Primeiro Ministro para que este formasse o seu Governo. Os Governos não são eleitos, apenas os deputados o são. É por isso que, volta e meia, surgem ministros "independentes", não ligados ao aparelho de nenhum partido.
Em 2000, quando os portugueses votaram, sabiam que estavam a votar no PSD, no PS, etc.. Mas sabiam, acima de tudo, que estavam, na prática, a escolher entre vários primeiros ministros possíveis. Os Partidos, aliás, não se inibem nada de passar a imagem de que quem importa é o líder, e não o aparelho que o designou. Fazem-no porque contam ganhar votos com isso. É por aí que as campanhas são cada vez mais personalizadas nos potenciais-futuros primeiros ministros, do que nas listas dos deputados. Os portugueses elegeram Durão Barroso, na prática, para Primeiro Ministro (para grande pena minha, diga-se). Mas elegeram-no. E contra factos, não há argumentos.
Durão Barroso (se não lhe passarem uma rasteira, entretanto) poderá ser o próximo Presidente da Comissão Europeia. Não vou discorrer sobre isso. Tem todo o direito de ambicionar mais para si, mesmo que isso passe por ser capataz dos senhores
Schroeder e
Chirac (como já o fora do senhor
W. Bush).
O problema é o da sua sucessão. Formalmente, constitucionalmente, não há nenhum problema de legitimidade. Basta o Presidente nomear um novo PM. Mas isso é formalmente. É que, por incrível que pareça a muitos de nós, o candidato a sucessor deste mau primeiro ministro, consegue ser ainda pior que o seu futuro-antecessor. E isso faz lembrar o seguinte:
As pessoas não elegeram Santana Lopes. Se o fizeram, foi como deputado. Será legítimo exigir a todos nós que aceitemos Santana? Ainda por cima quinze dias após umas eleições que foram tudo menos europeias e em que Durão, Portas, Santana e toda a direita receberam a pior derrota da história portuguesa do pós 25 Abril?
Que legítimidade teria Santana? Foi um terrível rival e adversário de Durão. É, em tudo, diferente (talvez o oposto) do futuro-ex-primeiro-ministro. Anunciou e desanunciou que o que pretendia era ser Presidente da República. Durão pediu-lhe que se calasse. Santana disse que sim. Mas não se calou. Que autoridade tem o nº 2 do PSD? Que legitimidade política recebeu? Quem votou nele para PM? Quem confia na sua postura vaidosa, auto-centrada e ziguezagueante? Ele próprio? A mãe? Não.
Ninguém.
E é pena, porque há quem diga que ele não tem medo de eleições. Até há quem diga que ele se farta de ganhar eleições. Até há, ainda, quem diga que só um tipo sem espinha nem tomates aceitaria chefiar o governo fugindo às eleições como parece estar para acontecer.
A estabilidade é importante, mas pode ser um problema. A estabilidade pode ser paz podre.
Quem tem medo de convocar eleições?
Quem tem interesse em que os portugueses não sejam ouvidos?
Acham que esta situação tem alguma dignidade, alguma nobreza?
Não me parece. Mas já percebi por que é que a sede nacional do PSD é numa zona chamada Lapa. É que eles, de facto, agarram-se ao poder como lapas. É coerente.
Não me levem a mal tanta tristeza. Simplesmente, não confio no doutor Santana Lopes. Acho-o populista, demagógico, preguiçoso e falso. Um
bluff. Mas não é de agora. Isto já vem dos tempos em que ele era o Sectário Detestado pela Cultura.