Entrevista a um Cromo
ArtJornal: Em que altura é que um estudante de direito descobriu que queria ser actor?
Miguel Barros: Eu comecei a fazer um curso de teatro, estava ainda no primeiro ano do curso de direito. Rapidamente, a desconfiança inicial deu lugar a uma enorme paixão pelo teatro. E, no momento em que percebi que tinha muito mais interesse, motivação e empenho no teatro, que no curso de Direito, a minha cabeça começou a fervilhar. A decisão de ser actor, surgiu (ou, pelo menos, sedimentou-se) quando comecei a ter convites para trabalhar profissionalmente e descobri que poderia ter hipóteses de retirar dali o meu sustento.
AJ: Pensaste desistir do curso?
MB: Sim. Houve uma altura em que pensei que seria mais coerente da minha parte largar o curso de Direito e dedicar-me, com todas as energias, a aprender teatro e a aperfeiçoar-me como actor. O Conservatório, por exemplo, foi também uma opção seriamente considerada. Mas depois decidi que, estando no 4º ano do curso de Direito, “abandonar” era uma espécie de desistência, de capitulação e eu não gosto de deixar projectos a meio.
AJ: Como foi a reacção dos teus pais. O que significava deixar para segundo plano o curso superior para ser actor?
MB: Para eles, era “a morte do artista”. A ideia de terem um filho (de quem gostam muito) a viver da representação e, por isso, dependente da possibilidade de surgir, ou não, trabalho. A ideia de terem um filho a viver numa situação de permanente instabilidade e desconforto financeiro, deixava-os em pânico. E disseram-me para não ir “por aí”. Sei que estavam preocupados comigo e compreendo o ponto de vista deles. Afinal, isto não é fácil. Mas não estou arrependido.
AJ: Porque ser actor?
MB: Pelo sonho de fazer algo que me permitisse comunicar com o outro. Para fazer sorrir, rir e comover o público. Para me conhecer melhor por dentro. Para tentar abraçar a “arte”. Para fazer a diferença. Para tentar melhorar o meu país. E porque dá um gozo do caraças. Infelizmente, nem sempre é possível fazer o tipo de trabalhos que nos realizem, mas uma pessoa precisa de viver, não é? Seja como for, sinto que ser actor é das poucas profissões em que, às vezes, se pode dizer: “Espera lá, eu estou a fazer tudo isto... e ainda me pagam?” É um privilégio. É difícil, mas para quem tenha estofo, vale a pena.
AJ: Quando te estreias, em que peças, companhia e palco?
MB: Em termos amadores, o meu primeiro trabalho a sério foi a fazer “Restos” de Bernardo Santareno (um texto notável e premonitório sobre Toxicodependência) no Teatro de Carnide. Em termos profissionais, estreei-me num espectáculo para a adolescência chamado “Maldita Borbulha” (Maria Matos). Depois, fiz a “Peregrinação”, na Expo, e ganhei muita experiência com o “Romeu e Julieta”, no Trindade. A partir daí, nunca mais parei.
AJ: Qual a sensação de uma estreia?
MB: Antes de entrar em cena, parece o fim do mundo: Vou muitas vezes à casa de banho, tento dominar o pânico, sinto que já não me lembro do texto, das marcações, de nada. Ponho tudo em causa.. Um pesadelo. A seguir, entramos em palco... E tudo reaparece, como que por milagre. Nos aplausos, sentimo-nos “os maiores”. É uma adrenalina extraordinária. Pensei que era da minha inexperiência, mas, quanto mais o tempo passa, mais difícil se torna.
AJ: Em televisão quando te estreias?
MB: Na série “O Espírito da Lei” (sem contar com alguns papéis menores em novelas). Antes já tinha feito o “Zapping” e o “Fenómeno”. Pelo meio, fiz muita publicidade.
AJ: Em que área gostas mais de trabalhar: teatro ou televisão?
MB: Teatro. A resposta até é demasiado fácil de dar porque, em Portugal, a televisão não te dá a hipótese de fazer as coisas com a calma e o profissionalismo que elas mereciam. O público mereceria mais respeito, mas as coisas, em tv, são sempre feitas precipitadamente, às três pancadas. Mas no dia em que a televisão “amadureça” e perceba a importância da qualidade, admito que não me seja tão fácil responder, de caras: "Teatro".
AJ: Gostavas de fazer cinema?
MB: Claro! E um dia, hei-de fazer. Mas é um meio muito fechado, com poucas produções, meia dúzia de realizadores e muitos actores a seguirem a filosofia “Sete cães a um osso”. Uma coisa que me faz confusão é ver realizadores a criticarem a falta de actores que, depois, vão contratar não-actores para o cinema. Nem se dão ao trabalho de pesquisar, de fazer castings, nada! Desvaloriza-se muito a profissão actor. Parte-se do princípio de que qualquer um pode ser actor, mesmo que não tenha experiência, formação, etc... Era giro se aplicassem esse tipo de raciocínio irresponsável aos médicos.
AJ: Quando é que surge a escrita na tua vida?
MB: Num programa que já referi, o “Zapping”, em que a equipa desdobrava-se toda em mil funções diferentes. Rapidamente, o meu contributo começou a passar pela interpretação e pela escrita, enquanto outros, por exemplo, trabalhavam mais reportagem. Isso foi reconhecido e, pouco depois, no “Fenómeno” fiquei responsável por tudo o que tivesse a ver com guionismo.
AJ: Tens já um livro publicado, a peça Nó na Garganta, distinguida com o prémio Miguel Rovisco, tens mais algum em vista?
MB: Sim. Tanto em Teatro, como em cinema e televisão. Posso dizer-te que, em teatro, escrevi a peça “Morangos com Açúcar” (que está em fase de ensaios). Além disso, tenho outros projectos teatrais mais “pessoais”, monólogos, etc.. Em cinema e televisão também estou a escrever coisas, mas manda a prudência que não fale sobre elas. Já me roubaram muitas ideias.
AJ: E como é que surgiu a oportunidade de escreveres para a Casa da Criação?
MB: De forma simples. Soube que a NBP estava a criar uma estrutura de guionistas, contactei-os, apresentei-me e... Pronto. Lá fiquei durante dois anos. Gosto de trabalhar na escrita de novelas porque, além de aprenderes a trabalhar sobre pressão, tens a garantia de que o que escreves vai ser produzido. Quando as coisas correm excepcionalmente bem, até podes tentar passar alguma pedagogia. O único inconveniente é a eterna “pressa” que nos impede de sermos mais ambiciosos e cuidadosos no trabalho. Um dia...
AJ: Foi um período em que as oportunidades como actor eram menores?
MB: Ao nível da NBP, tornaram-se praticamente inexistentes. Poderia ter tentado fazer teatro, mas isso roubar-me-ia o pouco tempo que tinha para a família. Como actor, foram dois anos de estagnação (em que apenas pude trabalhar como encenador e em publicidade). Por isso, aguentei, dois anos. Depois saí. Amigos como dantes.
AJ: Como é que vês o panorama em relação à selecção dos actores, achas que se aposta primeiro em caras bonitas em detrimento do talento?
MB: Isso é óbvio. Caras bonitas, inexperientes e baratas... Mas vai chegar o dia em que alguém diz: “Espera aí! Esta modelo não dá uma para a caixa... Não diz duas frases seguidas! Assim, temos que repetir quinze vezes cada take!” O barato sai caro. Na publicidade, por exemplo, caíram nessa idiotice de privilegiarem os modelos. Até ao dia em que perceberam que contratar actores, actores a sério, era um bom investimento. Um melhor investimento. Se houvesse mais produção de ficção em Portugal, esse processo andava mais rapidamente. Acontece que a produção de ficção está concentrada em pouquíssimas empresas que lutam para sobreviver. A concorrência não funciona, logo, a qualidade não é importante. Mas será! Eu acredito no futuro...
AJ: Também já encenaste o 2º a Circular, um grupo de teatro universitário, como é que surgiu a oportunidade e como foi a experiência?
MB: Foi por ter descoberto que na ESCS havia quem tivesse vontade de fazer teatro, mas sem ter contactos para fazer avançar o projecto. A experiência foi óptima. Cresci muito, como actor, como encenador, como profissional e como homem. E assisti a esse processo magnífico de ver os elementos do grupo (actores e não só) a crescerem comigo.
AJ: Como é que vês o teatro universitário em Portugal?
MB: Com esperança, mas algum cepticismo. Esperança porque o Teatro universitário é o caldo de cultura de onde surgirá toda uma geração de profissionais, generosa e talentosa. O teatro universitário é uma verdadeira escola de vida. Também tenho algum cepticismo, na medida em que vejo que, nos últimos anos (parafraseando o Kennedy) os estudantes universitários deixaram de olhar para o teatro dizendo: “O que é que eu posso fazer pelo grupo?”. Agora é mais: “O que é que o grupo pode fazer por mim?”. Isso é preocupante. Tem a ver com a moda do sucesso instantâneo, com os facilitismos, etc.. Mas as modas são isso mesmo: modas. A qualidade (designadamente, a qualidade humana das pessoas) nunca sai de moda.
AJ: Achas o teatro bem tratado em Portugal? E no resto do Mundo?
MB: Acho que não é bem tratado em Portugal. De maneira nenhuma. E no resto do mundo também não é pêra doce, mas há sítios onde o teatro é encarado com um pouco mais de respeito: Barcelona, Londres, Praga, Nova Iorque serão bons exemplos.
AJ: O teu novo projecto é de humor, é um terreno em que te sentes confortável?
MB: Não. Por isso é que foi tão importante atirar-me de cabeça. Eu olhava para a stand up que se fazia (sobretudo em televisão) e pensava: “Não me identifico nada com isto”. Também pensava “Isto tem um enorme potencial”. Em vez de ficar quietinho a dizer mal do mundo, decidi pôr mãos à obra. E rapidamente percebi que a stand up é muito mais do que aquilo que nos vendem. Nos Estados Unidos, por exemplo, a stand up comedy que se faz actualmente é bastante mais próxima daquilo que são os meus objectivos.
AJ: Qual o percurso que te levou a este espectáculo?
MB: É simples. Estava sem trabalho. Olhei para a agenda e percebi que tinha um longo período em que não tinha nada planeado. Como sou argumentista e actor, pareceu-me que faria sentido avançar para um registo em que as duas áreas casam na perfeição. Desafiei a Susana (a minha mulher) e saltámos no escuro. Deixa-me dizer mais isto: quando, na pergunta anterior, digo que não estou confortável no terreno do humor, digo-o porque é um terreno difícil, onde acho que só vale a pena trabalhar com inteligência. Recuso a mediocridade. Quando as premissas são estas, quando a fasquia é tão alta (e, de alguma forma, pretensiosa) uma pessoa não pode defraudar as expectativas que cria.
AJ: Os teus textos têm uma componente bastante social e de consciência política, abordas temas como o colonialismo, o Iraque, a situação política no nosso país, achas importante falar de coisas sérias, mas a brincar ?
MB: Rir é fazer cócegas ao cérebro, dizia o Woody Allen. Acho que o riso pode ser bom... E pode ser óptimo. Rir de uma macacada qualquer, rir do gajo que escorrega na casca de banana, ou que leva com a tarte na cara, não tem mal nenhum. É bom! Mas rir, porque percebemos que vivemos num manicómio gigante, questionar todos os fundamentos da sociedade, ridicularizar as nossas próprias condutas e atitudes... Isso é magnífico. Eu entendo que a arte deve ter uma função social e política. Recuso-me ser inútil, ser cómodo, encostar-me. Sou um pouco como o Michael Moore (à escala, naturalmente). Gosto de denunciar, gosto de ser o Cromo que grita: “O Rei vai nu!” No meu caso, talvez diga: “O Rei vai nu e ainda abana a pila para nós! Está a gozar connosco!”
AJ: Tens mais projectos nesta altura?
MB: Oui! Estou a pensar desenvolver esta linha do Cromo. A seguir ao Cromo Sapiens, um espectáculo político, com algum humor sexual, vou fazer o Cromo Erectus, um espectáculo sexual com algum humor político. Vai ser uma comédia de costumes sexuais. Divertida e excitante, mas dura, como convém quando se fala de sexo.
AJ: Qual foi o trabalho que te deu mais gozo, mais prazer ou com o qual aprendeste mais?
MB: Não ficaria bem comigo se não mencionasse, em resposta à tua pergunta, um espectáculo para a infância que fiz: “O dia em que troquei o meu pai por dois peixinhos”, com encenação do João Ricardo e texto do Neil Gaiman. Foi um grande marco na minha carreira. Deu um gozo enorme e projectou-me bastante.
Nos últimos anos, curiosamente, talvez seja este, o Cromo Sapiens. Nesta stand up, sou actor, guionista, produtor, relações públicas, etc.. A minha mulher também é produtora, locutora, operadora de luz, toca piano, manda bocas foleiras... Dependemos literalmente, de nós. Não há cá estruturas, nem redes, nem nada. O risco foi todo nosso. Posso dizer que estou orgulhoso. Estou orgulhoso de mim e da Susana. Não ficámos à espera que o telefone tocasse. Avançámos, corremos o risco. Fizemos a diferença. Foi uma total irresponsabilidade!
AJ: Qual seria para ti o maior desafio com actor?
MB: Um vilão. Mas um vilão como deve ser, inteligente, com maldade pura, com humanidade. Adoro a vilania! (Não digam que é por eu ser mauzinho, a maior parte dos actores gosta de fazer personagens que sejam o oposto de si).
AJ: Profissionalmente qual o teu maior sonho?
MB: Chegar a um ponto em que possa fazer, só, coisas que me dêem gozo. Não quero ficar extraordinariamente rico, nem faço questão de ser muito famoso, mas quero ter algum conforto e algum reconhecimento. No dia em que possa, sem hesitar, recusar trabalho por achar que não tem qualidade, serei um homem feliz. Também gostava de fazer uma sitcom, ao estilo britânico. E... (Nunca mais me calava)
AJ: Como é que te defines como actor?
MB: Qualidades: Presença, voz, dicção, sinceridade, olhar.
Defeitos: Postura, falta de flexibilidade, caretas a mais, a dançar sou um cepo.
AJ: Como é que te defines como advogado?
MB: Não sou advogado. Sou licenciado em direito, mas nunca estagiei. Assim, sou “só” licenciado em Direito. Como advogado, fui o “André Pinto” na série “Espírito da Lei”.
Fora de gozo, o curso foi bom para me dar estrutura e aperfeiçoar a capacidade de um raciocínio argumentativo e organizado (úteis para a escrita criativa). De resto, não me deu mais sentido de justiça do que já tinha. Na faculdade, assisti a mais injustiças que o oposto. Mas foi uma escola de vida. Para o bem e para o mal.
AJ: Como é que te defines como pai?
MB: Falível, mas atento e muito bem intencionado. Estou convencido que a Maria (a minha filha) me vai ensinar a ser o pai que ela merece. Se tudo correr bem, ela vai poder dispensar a psicanálise, daqui a uns anos. Acho que eu e a minha filha nos entendemos tão bem porque temos, aproximadamente, a mesma idade mental (1 ano).
AJ: Como é que te defines como pessoa?
MB: Olha que porra! E qual é o sentido da vida, já agora?(...) Sou um eterno insatisfeito. Mas estou muito feliz por estar aqui. Não trocava estar vivo por nada. As pessoas têm tendência a desvalorizar o facto de estarem vivas! Como é que é possível?!
esta entrevista foi dada à Catarina dos Santos, jornalista do Artjornal
Não desistam de mim!
Tenho sido um mau menino, tenho-me portado mal. Mas não deixem de vir cá... Preciso tanto de ter amigos! Vocês são os meus únicos amigos!
Ok. Não são propriamente "os meus únicos amigos". Aliás, muitos de vocês eu nem sei quem são, por isso poderá ser um bocado exagerado considerar-vos amigos, mas vocês percebem o que quero dizer. A todos: amigos, conhecidos, simpatizantes, curiosos e pessoas que se perderam a navegar; preciso de vos dizer uma coisa.
Cá vai: "Uma coisa"!
Não, não é "uma coisa"; preciso de vos dizer o que se segue: "o que se segue!" (Também não era isto... Continuem a ler)
Devo-vos um pedido de desculpas. Tenho andado a negligenciar o Cromo. Mas tenho não uma, mas várias boas desculpas para o meu comportamento (caro leitor, mais um momento de interactividade - escolha a desculpa que lhe parece mais ajustada e veja as soluções no fim):
1. Tive que fugir para o estrangeiro por estar a ser perseguido pelas polícias de vários países;
2. Mais uma vez, fui de férias, e não tive tempo de o anunciar;
3. Tenho estado num sítio onde não tenho (e dificilmente teria, mesmo que andasse kilómetros) acesso à internet;
4. Tenho estado à espera de um telefonema do dr. Santana Lopes para ser convidado para o novo governo. A espera deixa-me inquieto e tira-me a vontade de escrever;
5. O meu computador anda armado em parvo e só tenho internet quando ele se digna a isso;
6. Todas as possibilidades acima descritas.
resposta com piadinha: n. 4. Se ele pode ser Primeiro Ministro, por que carga de água não hei eu de poder?
resposta com honestidade: 2, 3 e 5
I´m Back!