Morangos com Teatro
Não sei se chegaram a ouvir falar, mas no passado dia 8 estreou e, desde então, anda a correr o país em digressão, o
espectáculo de Teatro Morangos com Açúcar. Ainda não tive oportunidade de ver, mas contam-me que está a ser um sucesso, algo que me deixa bastante feliz. Esta é a altura em que vocês perguntam: Por que raio está ele a falar nisto? Por uma razão muito simples. Eu sou o autor da peça. Estranho? Nem por isso.
Lembram-se de ter dito que estava a trabalhar num projecto de teatro sobre o qual não podia, na altura, alongar-me? Era esse mesmo. A Casa da Criação, empresa ligada ao universo NBP, e responsável pela escrita de várias novelas, entre as quais, os Morangos, convidou-me a escrever a versão teatral deste conhecido sucesso televisivo. Porquê? Porque eu já lá tinha trabalhado durante dois anos (na concepção e escrita de várias telenovelas) e eles já conheciam o meu trabalho.
Estive para falar aqui, no blog, sobre este projecto, mais cedo só que, entretanto, surgiram as minhas férias neuronais e perdeu-se a oportunidade. Mas mais vale tarde, do que nunca.
Concluindo, ainda não vi o espectáculo e sou obviamente suspeito para o elogiar, mas se quiserem ir conhecer o outro lado das personagens televisivas da novela da tvi e ver em cena um texto escrito por mim (com um estilo de humor totalmente diferente do Cromo Sapiens, como é óbvio) aqui fica a sugestão. Não sei quais vão ser as datas e os locais da digressão, mas essas informações deverão ser fáceis de obter no
site da NBP. Espero que se divirtam.
E é a Marta assim, perdidamente
Não há nada como vir de férias e perceber que somos importantes. Eu explico:
Se há sentimento que consome energia é o ódio. O ódio cansa, desgasta, faz queimar neurónios, perder cabelo e aumentar o peso (tanto que eu, só por essas razões, evito odiar). Depois, há mais um problema com o ódio, que é o seu lado irónico: é preciso dar importância a alguém (mesmo que pela negativa, "admirar" alguém) para que esse alguém nos mereça um sentimento tão forte como o ódio. Por outras palavras, o ódio é uma forma frustrada de amor, se quiserem.
Isto vem a propósito de quê?
De um simpático comentário que me foi deixado aqui por uma pessoa (no texto anterior a este). Como sei que vocês não se vão dar ao trabalho de ir procurar, publico-o aqui, na íntegra:
"És um palhaço no sentido péssimo da palavra "palhaço".
Metes nojo.
Já toda a gente percebeu que não sabes escrever.
Já toda a gente percebeu que não sabes representar.
O que é que andas aqui a fazer?
Vai de férias, vai, mas, por favor, não voltes.
Marta 08.16.04 - 12:26 pm # "
Pensei: E pimba! Toma lá, que é para aprenderes! Com a Marta não se brinca!
Antes de mais, deixem-me dizer que, num conjunto de coisas, ela tem razão:
Primeira: não me apetecia ter voltado antecipadamente de férias. Acontece que vou ter um
casting e teve que ser (desculpa lá, Marta).
Segunda: também não deixa de ser interessante ela dizer que eu não sei representar. É verdade que, como actor, sou um pouco limitado, mas não o escondo de ninguém.
Terceira: "Toda a gente percebeu que não sabes escrever"? Ó, Marta! Esqueceste-te de mim! Eu ainda não tinha percebido que não sabia escrever. E, se queres saber, não concordo contigo. Assim, só por causa disso, já não tens razão. Devias ter escrito: "Só tu é que ainda não percebeste..." Custava muito?
Adiante, li o comentário da Marta e fiquei impressionado e comovido. E por que é que fiquei impressionado e comovido? Porque a Marta é a prova viva de que estou a ficar importante. Q
uiçá, famoso, até... É que eu pensava que este
blog só era lido por meia dúzia de pessoas (família e amigos, na maioria) e mais por simpatia, que por interesse genuíno.
Quem, no seu perfeito juízo, não gostando de mim, nem do que eu faço, se daria ao trabalho de ler os meus textos? E de me tentar atingir pessoalmente? E de nem sequer deixar apelido, ou
e-mail, para podermos corresponder-nos (sei lá, poderia ser o início de uma grande amizade)? Quem era essa Marta que não hesitava em tratar-me por tu e que me brindava com essa expressão tão cândida, adulta e feminina: "Metes nojo"?
Fiquei intrigado. E pus-me a pensar...
Num primeiro momento, pensei telefonar a todas as Martas que conheço e perguntar-lhes: "Ouve lá, o que é que andaste a escrever no meu blog?" Mas cheguei à conclusão que isso seria pouco inteligente (porque a verdadeira Marta não responderia) e, sobretudo, improdutivo (porque não conheço nenhuma Marta). Mas não desisti. Tinha que descobrir essa Marta que anda empenhada em tornar-me um homem famoso e que me ama tanto, ao ponto de me odiar...
Pensei, pensei... Marta-lei a cabeça...
E concluí.
Concluí que se tratava de uma pessoa cobarde que, usando um nome falso (quem nos garante que a "Marta" não é na realidade um camionista chamado "Asdrúbal"?), se entretinha a disparar tentativas de insultos nos
blogs alheios. Por fim, rematei na minha cabeça que deveria ser alguém muito frustrado com a vida, talvez um/a actor/actriz ou guionista/guionisto. Seja como for, seria sempre alguém que, não gostando de mim, conhecia e até acompanhava o meu trabalho. E voltei a pensar: "Estás a ficar famoso, Miguel"...
Concluí tudo isto.
Mas concluí mal.
Eu estava errado, meus amigos, erradíssimo! Que precipitação, essa, a de achar que a Marta era uma pessoa covarde, sem coluna vertebral e vazia de escrúpulos! Nada disso!
Após bastante puxar pela cabeça (tendo, inclusive, deslocado uma vértebra) descobri toda a verdade!
A Marta não estava a esconder a identidade! Na realidade, se a Marta não deixou
mail, nem assumiu o apelido, é porque isso não é preciso. Sabem porquê? Porque não sou só eu... Todos nós conhecemos a Marta! Todos! Perfeitamente!
A Marta é aquela rapariga que trabalha na OK Teleseguro! É ela quem atende sempre : "Olá, boa tarde, aqui fala a Marta!". Incrível, não é? As conclusões a que uma pessoa chega com um pouco de esforço...
Está tudo explicado. A Marta anda cansada, coitadita. Também, já viram? Sempre que alguém liga para lá, é ela quem atende! São dezenas de milhares de chamadas por dia! E a moça tem que aturar mulheres com ar imbecil que lhe dizem "Marta, eu não sei mudar um pneu!" e "Isto com três rodas, não anda!". A Marta tem que ouvir, pacientemente, tipos que lhe dizem que, desde que a viram na tv, a querem comer em cima da secretária do computador. E ela tem que fazer tudo isto e manter aquela voz plástica, educada e sorridente. A Marta não tem descanso!
É natural que, nos seus tempos livres, a Marta não esteja bem disposta. Temos que compreender, não é? Aliás, bem vistas as coisas, ela nem disse nenhuma mentira. Pelo contrário, até contribuiu humildemente para o meu megalómano objectivo de me tornar rico, famoso e polémico. Obrigado, Marta!
Só há uma coisa que me intriga... Não me lembro de ver a Marta da OKTeleseguro nos meus espectáculos... Estarei a pensar na pessoa errada?
Bom. Não importa, há um pensamento que me conforta: seja ela quem for, vai ler este texto. E, só por isso, vai estar a dar-me importância (que eu não pensava que tinha). Vai sentir-se gozada e, por isso, tentada a escrever uma resposta... Mas depois vai pensar que, escrevendo, ainda me dá mais importância... Vai pensar: "escrevo... Não escrevo?"
Marta, tal como tu fizeste comigo, dirijo-me a ti na segunda pessoa, apesar de não ter andado contigo na escola: "Quando essa cabecinha decidir se há-de escrever, ou não, cá te esperamos. Manda mais postais. Tens aqui um ombro para chorares, amiguinha."
PS: O caro leitor deverá ter reparado que este
post surgiu em Agosto e não em Setembro, como seria de prever. É para verem as saudades que eu tenho de vocês (e até de ti, Marta). Nos próximos dias, a escrita não estará regular, porque ainda estarei de semi-férias. Prometo que, em Setembro, a coisa volta ao ritmo normal.