Seja bem-vindo quem se vier por bem
Atenção, malta, momento raro!..
Neste
post vou falar do Paulo Portas... E não vou dizer mal dele!
O dr Paulo Portas esteve a falar com a Judite (Judite de Sousa - não está envolvido em nenhum processo com a outra Judite!) e, durante a entrevista, disse uma coisa que chocou muita gente. Disse que, se o PS fosse o partido mais votado, mas fosse a direita a ter maioria na Assembleia da República, o Presidente deveria chamar PSD e PP a formarem governo. No dia seguinte, no Fórum TSF, ouvi uma chuva de críticas ao homem, "que era um fascista", "que aquilo só podia vir de um anti-democrata", "que ele tem que mudar de penteado, porque parece ter capachinho"...
Excepto a parte do penteado, as críticas não têm nenhuma razão de ser. O que ele disse é a mais pura das verdades: Não é necessariamente o partido mais votado que forma governo.
Porquê?
Por uma razão muito simples. Um governo só pode funcionar se conseguir fazer passar na AR, pelo menos, alguns diplomas essenciais: como o programa de governo e o orçamento de Estado.
Imaginem que o PS era o partido mais votado, mas que a esquerda estava em minoria (não é impossível, por exemplo: PS - 45% PSD - 40% PP - 10% PCP - 2% BE - 2% Outros - 1%). Neste cenário, um governo PS só conseguia aprovar leis se fosse buscar votos de deputados da direita. E, se a direita recusasse dar esses votos... as leis não passavam. Pelo contrário, se a direita votasse uma moção de censura... o governo caía na hora.
Após as eleições, o PR tem que, olhando para os resultados, decidir qual é o cenário mais estável, em que se forma uma maioria que aguenta o governo. Isso não é anti-democrático. Isso é muito democrático. Ao votarem PP, diz P.P., as pessoas mostram que não gostam de maiorias absolutas e que querem um governo de coligação. E tem razão! Diz que, ao votarem PSD, mostram que querem um governo beeeem à direita, controlado, na prática, pelo PP. E tem toda a razão.
Paulo Portas não é um grande democrata - isso não é novidade para ninguém - mas estava cheio de razão naquilo que dizia sobre a dicotomia: partido mais votado vs maioria de direita (ou de esquerda). Se fosse ao contrário (PSD mais votado, mas maioria de esquerda no parlamento) seria a esquerda a ter legitimidade para formar governo. Simples, não é?
E agora? O que fazer?
Também é simples. Se não querem que o governo que tivemos nos últimos 4 meses, dure mais 4 anos (!) já sabem quais são os dois partidos em que não devem votar. Simples, não é?
Ilhas
A experiência açoriana marcou-me mais do que previra. Não estou a falar tanto do ponto de vista profissional, apesar de o processo de trabalho ter corrido muito bem. O mais intenso, e assim é que deve ser, foi o lado humano da minha estadia.
É realmente diferente viver numa ilha. E é um privilégio poder viver no Faial em particular, mas quem o faz acaba por ter que adaptar-se às coisas boas e más que isso implica. Quando se vive numa ilha a ideia de isolamento está muito presente. É o mar, que espreita por todos os lados, que nos chama a atenção para isso, quer queiramos, quer não.
Reparei, por exemplo, que a maior parte das casas antigas tinham sido concebidas viradas para a estrada, para a comunidade, mas de costas para o mar. É engraçado, se pensarmos que o "
Eldorado" de quem vive no continente é, normalmente, ter casa com vista para o mar. Essa é, para a maioria das pessoas, a vista de sonho, o factor que eleva os preços das casas, uma marca distintiva.
As casas mais antigas do Faial parecem, pelo contrário, ignorar o mar, virar-lhe as costas. A maioria nem tem janelas para aí orientadas. E à estranheza, seguiu-se a reflexão: e concluí que, para um açoriano, há várias razões possíveis para não querer estar virado para o mar. A primeira é... abundância. Difícil, naquela terra, é ver mais terra, ver verde. O mar está tão omnipresente que se torna trivial. O mar já é o elemento de trabalho para uma grande parte da comunidade. E estará sempre lá, quer se queira, quer não. Outra razão tem a ver com as intempéries. Uma casa exposta ao mar, acaba por sujeitar-se a chuvas e ventos mais fortes e mais frios que uma casa mais "abrigada". E depois ainda há o lado psicológico. Para um açoriano (pelo menos, para um açoriano de "antigamente") o mar, mais do que tranquilidade, lembra, justamente, isolamento, obstáculo, barreira que afasta da terra, impossibilidade de fuga. O mar torna-se alvo de uma relação de amor-ódio. É preciso ter estofo para viver numa ilha.
Dei por mim a sentir-me apaixonado por aquela terra, aquela paz, aquela vista infinita de mar. E a pensar que aquilo era o sítio ideal para fazer o que faço: escrever.
Mas quando elogiava a qualidade de vida deles, muitas vezes diziam: "mas é preciso habituares-te à ideia de que isto é uma ilha."
E acabei por ter mais uma reflexão (ando a ter muitas, isto deve ser perigoso): Não são só eles. Todos nós vivemos numa ilha. Não, não estou a falar no sentido metafórico ou poético (embora essa imagem seja muito válida). Estou a falar em termos reais, concretos, geográficos.
O que é que é uma ilha? Um pedaço de terra, completamente rodeado por água, certo?
Então todos vivemos numa ilha. É só uma questão de escala, afinal há mais mar do que terra... A minha ilha é uma das maiores: chama-se Eurásia e é considerada um continente. Mas é só uma grande, grande ilha... Saí de lá a achar que a ilha deles era mais pura e bonita do que a minha.
Onde começa a censura?
Pensei bem antes de escrever este
post, até porque o conteúdo do mesmo é, em certa medida, desagradável. Mas sinto que devo aos meus leitores este esclarecimento.
A segunda ronda de espectáculos no Bar Maus Hábitos, no Porto, inicialmente prevista para os dias 16, 17 e 18 de Dezembro, foi definitivamente cancelada. Se isso aconteceu, não foi por falta de vontade minha, mas sim por um conjunto de circunstâncias desagradáveis que me parecem importantes tornar públicas (enfim, com a publicidade que este
blog permite):
A experiência de fazer
stand up comedy nos Maus Hábitos foi vista, inicialmente, com entusiasmo por parte dos donos do espaço;
Durante as negociações e calendarização dos espectáculos não me foram colocadas quaisquer limitações ou tabus, sobre os conteúdos do espectáculo Cromo Sapiens e o ambiente vivido foi estimulante e simpático;
Foi nesse ambiente que apresentei os primeiros 3 espectáculos. Mas tanto eu, como a Susana, sentimos que a forma como estávamos a ser encarados pela gestão do bar, foi mudando. Designadamente, a partir do momento em que estreámos: o público foi gostando cada vez mais, mas os nossos hóspedes foram sendo cada vez mais frios;
O ambiente foi-se deteriorando, as regras (de definição dos
cachets, das horas de apresentação, etc..) foram mudando, já "o jogo estava a decorrer". Achámos que era uma questão de organização (ou falta dela) do bar e decidimos não dar importância ao caso;
O adiamento dos 3 últimos espectáculos deveu-se, de facto, à realização de obras inadiáveis no espaço em que o espectáculo estava a ser apresentado;
Mas o reagendamento dos mesmos espectáculos sofreu obstáculos estranhos, adiamentos inexplicáveis e dificuldades de última hora;
Finalmente, foi-me dito que os espectáculos, a terem lugar, teriam que decorrer às 21.30 (ou mais cedo!) uma vez que já tinham sido, entretanto, agendadas novas iniciativas para as noites em questão;
Não há nenhum bar de
stand up comedy a iniciar espectáculos nesse horário. A
stand up é, na sua essência, um género de
late night. Os clientes dos bares, em geral, também só começam a aparecer entre as 23h e as ooh. Ou seja, agendar espectáculos às 21.30 seria, previsivelmente, garantir que não haveria público para as três últimas sessões do Cromo Sapiens.
Estranhei a inevitabilidade do novo horário e contactei, de volta, o Bar. Ao dizer que não percebia o que se estava a passar, foi-me explicado que parte da gerência do Bar não concordava com os temas, forma e conteúdos do meu espectáculo e que essa era a verdadeira razão para o novo horário:
1. assegurar que eu poderia fazer o espectáculo (e que os maus Hábitos não faltariam ao acordo);
2. assegurar que não haveria público habitual presente.
Expliquei que, obviamente, não tinha interesse em fazer o espectáculo num sítio onde o espectáculo não era desejado e, consequentemente, os espectáculos foram cancelados, por comum acordo.
Os donos de um bar têm o direito de decidir que tipo de espectáculos agendam. Acho que isso é óbvio. Mas já entramos nos terrenos da desonestidade intelectual quando, por discordância, medo de represálias políticas, ou mero desagrado estético, a carreira (pré-combinada) de um espectáculo é interrompida a meio. A coisa ainda é mais feia, quando é feita, como foi, sem frontalidade.
O que é que isto quer dizer?
Que consegui um dos primeiros objectivos do Cromo Sapiens: ser censurado.
Este episódio mostra que há muita gente (
lobbies? câmara municipal? gente de especial sensibilidade?) que prefere que o espectáculo não se realize. E que está disposta a usar meios deselegantes para conseguir esse objectivo. O Cromo Sapiens incomoda, de facto...
Queima... Assusta... Intimida...
Tenho pena porque, além da censura implícita no comportamento da gestão dos Maus Hábitos, eu e a Susana até tinhamos gostado muito do espaço e de algumas pessoas que lá trabalhavam. E continuamos a achar que os Maus Hábitos são um bar onde se presta um serviço público, à cultura, às artes, e às gentes do Porto.
É pena que, por trás da fachada intelectual, os Maus Hábitos não sejam um espaço de Liberdade. É mesmo pena.
E agora?
Bom...
Uma vez que há quem não queira o Cromo Sapiens no Porto...
Parece que não tenho alternativa, não é?
Paciência...
Estou a negociar as datas da minha ida ao Porto, noutro espaço, para breve.
Bibó Puôrtô!
Uff!
Já foi. Estávamos os dois bastante nervosos, não só pela situação, como pela grande quantidade de factores novos em causa: um casal, a estreia da Susana em
Stand Up, o tema machismo, a já "clássica" agressividade dos meus textos, etc..
E correu muito bem. O público correspondeu e deixou-se envolver de forma surpreendente. Um dos objectivos mais delicados era fazer crer que a "invasão" da Susana era "real" (pelo menos, deixá-los na dúvida) e isso foi conseguido. Foi admirável: no momento em que ela subiu ao palco, a sala ficou em êxtase, num silêncio embasbacado, convencida que aquilo, definitivamente, ia dar m... Claro que, depois, toda a gente percebeu o "esquema" (e isso também fazia parte). No final, além do alívio, foi para nós revigorante sentir que o nosso trabalho tinha agradado, não só aos colegas, como ao público, e às pessoas que tinham arriscado convidar-nos.
A única coisa que me entristeceu, ironicamente, teve a ver com o "excesso" de reacção do público masculino. Não foi o "Tira! Tira!" - enfim, também isso, não mostrou grande educação. Mas estou a falar da estranha facilidade com que aderiram aos meus argumentos mais machistas. Eu, para ali, a dizer alarvidades (que, pensava eu, eram uma caricatura em traço grosso do "português de antigamente") e aquela malta, universitária, informada e com vinte e poucos anos, a tomar imediatamente o meu partido... Enfim, é o país que temos!
Levanta-o e Ri
Pois é. Hoje é o dia da nossa apresentação, como casal, no
Levanta-te e Ri!.
Foi ao terem conhecimento que, no espectáculo
Cromo Sapiens, eu e a Susana brincávamos com o facto de sermos um casal "na vida real", que nos contactaram para experimentarmos o formato parelha. Disseram-nos que gostavam de também ter para mostrar o lado feminino da comédia, que faziam falta mulheres a fazerem
stand up, e que a Susana, à partida reunia todas as condições para o lugar. Ficámos orgulhosos, mas com alguma dose de ansiedade. Afinal, no
Cromo, a Susana mandava "bocas" e fazia-o muito bem... Mas a ideia, agora, era representar o ponto de vista feminino num universo marcadamente masculino e bastante machista. Tarefa hercúlea e arriscada... Além disso, a Susana ainda tem dificuldade em assumir-se uma
performer em
stand up. Ela é essencialmente actriz e, nisso, é (digo-o sem falsas modéstias) muito melhor e mais madura do que eu. Mas fazer
stand up?
É óbvio que a possibilidade de brincar com o machismo, mais esse pilar estruturante da sociedade portuguesa, era um convite irrecusável. Veremos se estamos à altura.
Está provado que Santana tinha razão...
...quando se comparava a um bebé, prematuro e indefeso, numa incubadora .
Eu já o achava pouco desenvolvido, intelectual e capilarmente falando. Mas hoje ele acaba de mostrar mais um sinal de falta de maturidade afectiva, ao anunciar a demissão de um Governo já demitido (não só pelo PR, mas pelos portugueses) mas ressalvando, ainda assim, que por ter sentido de Estado, ia manter um governo de gestão. No fundo, o que ele disse é que ia cumprir os mínimos legais exigidos, pela Constituição, aos Primeiros Ministros que foram corridos por incompetência crónica.
Muito obrigado por assegurar o governo de gestão, doutor Santana! Talvez consiga estar à altura. Mas, já agora, veja lá se percebeu: Governo de gestão significa "FIM de nomeações; FIM de novas despesas; FIM de parvoíces de última hora". Está compreendido? Muito obrigado!
Dizia eu que o "Pedro" é, realmente, em muitos aspectos, um bebé. E dizia-o com razão. Eu, que tenho tido, desde há 17 meses, a experiência de ser pai, revejo nele algumas atitudes típicas dos imberbes. Deus me perdoe pelo que vou dizer, doutor Santana: mas o senhor fez-me lembrar a minha filha (à medida que dizia esta frase, já a boca me amargava... Desculpa, Maria!).
É que ela, quando quer miminhos, quando gosta de chamar a atenção, só porque sim, vira-se para nós, estende a mão na nossa direcção e diz, com voz aflita: "Paííí, Mãííí´... Dodói Dêduu!"
Em troca, nós damos-lhe beijinhos no dedo e perguntamos se já está tudo bem. Ela responde sempre: "Shííí!" e está reencontrado o equilíbrio familiar.
O doutor Santana, ao queixar-se de ter sido demitido por causa dos seus próprios erros, ao vitimizar-se, ao jurar que respeita o PR, e ao atacá-lo em seguida, ao negar o óbvio... fez lembrar o capricho de um bebé.
Mas há uma pequena grande diferença, doutor Santana. A minha filha tem direitos que o senhor nunca vai ter. Porquê? Porque ela ama-me incondicionalmente; não quer nada de mim; é desinteressada e generosa; porque tem a desculpa de estar com dores de dentes; porque é infinitamente mais bonita que o senhor; porque é a minha filha...
É por isso que ela vai continuar a ter os meus beijinhos, enquanto o senhor pode esperar sentado pelo meu voto.
Satisfeito? Não? Então, eu faço um desenho:
Ela tem idade para birras, senhor doutor! O senhor tinha idade para ter juízo!
VADE RETRO, SANTANÁS!