Seja bem-vindo quem se vier por bem
Atão, sobreviveram ao révelhão?
Parece que sim, não é?
Pois a minha passagem foi bastante caseira e sóbria. Mas cheia de emoções fortes. Primeiro, estive com os meus pais e irmã e depois com a Susana e a Maria (no jantar e na hora H). Pela noite dentro, as coisas aqueceram, claro! Não sejam badalhocos, não foi isso. Quero dizer que estava a passar uma maratona do "The Office" no People and Arts. Fiquei a rir com o David Brent, o Tim, o Garret... até perto das cinco da manhã! E vocês a cairem para o lado de bêbedos...
Pois é... Cá estamos. Chegámos a 2005. Pois é... 2005! Pois é!... 2005! (O ano está tão fresquinho que ainda não ocorre dizer nada que não sejam os clichés bem intencionados do costume. Poupo-vos a isso)
Mas houve uma coisa que achei engraçada. O dia 1 de Janeiro é, por tradição, um dos feriados mais respeitados. Para alguém que só gosta de café expresso e que não abdica do jornal, como eu... é um dia difícil, como é fácil de imaginar.
Acabei por encontrar café. Jornal é que nem sombras. Tudo bem. Têm direito.
Mas é interessante: os jornais são escritos de véspera, certo? Então, se hoje não saíram, as redacções dos jornais folgaram no dia 31. O dia de hoje (1) foi dia de trabalho. A menos que os jornalistas façam folga dois dias seguidos. Eu que leio um jornal de uma empresa gerida pelo Belmiro de Azevedo não acho que isso seja muito provável.
Parafraseando o Zeca, "Venham mais 2005!"
"Enterrar os mortos e cuidar dos vivos"
A frase do iluminado Marquês, que está à beira de fazer 250 anos, continua de uma actualidade assombrosa.
Nos últimos dias, pudemos assistir a um incrível
volte-face na generosidade ocidental. Os Estados Unidos resolveram duplicar as verbas para a ajuda aos países afectados (e prometem mais). A União Europeia também segue o mesmo caminho. O mesmo se aplica ao Japão, Arábia Saudita, Dinamarca, China, Grã Bretanha e à nossa extraordinária vizinha Espanha, que se vai chegar à frente com 50 milhões de euros. Portugal deverá enviar o que sobra do Fundo de Pensões da Caixa Geral de Depósitos e as receitas do totonegócio.
Até Timor Leste, o mais pobre país da região, completamente dependente da ajuda externa, decidiu atribuir 50.000 dólares de apoio. Quando ouvi José Ramos Horta dizer que "Era o mínimo que podiam fazer", fiquei sensibilizado. Só queria ligar-lhe pessoalmente e dizer: "Devolvam-nos esse dinheiro e não se armem em ricos. Com essa verba, Portugal poderia pagar uma ambulância permanente do INEM para o nosso Primeiro Ministro. Essa quantia pagava metade do que custou o caderninho promocional com o orçamento de Estado! Há coisas mais importantes que salvar vidas!"
(estou a brincar, fiquei mesmo comovido).
Mais que os governos, estão a ser os povos, a sociedade civil, e as ONG´s a responderem ao apelo e a contribuirem de forma muito significativa para que o sudeste asiático possa reerguer-se dos escombros, "enterrar os mortos e cuidar dos vivos".
Sabem o que é mais extraordinário? É que todo este processo, todo este acordar global se deve... Exactamente: a mim. Tudo isto é consequência directa de um texto que eu escrevi neste
blog, criticando a sovinice ocidental. Se não fosse o Cromo Sapiens, nada disto seria possível.
(Se calhar, também é justo dar algum crédito a Jan Egeland, coordenador da emergência de socorro das Nações Unidas, que qualificou, há dias, a contribuição dos países ricos como "miserável". Poderemos ainda mencionar a pressão da opinião pública internacional. Poderemos até, se quisermos ser optimistas, achar que esta situação trágica veio mostrar que o ser humano é, essencialmente bom. Mas o gatilho que despoletou todo este movimento de massas mundial foi, sem dúvida, o meu
post de há dois dias. Mas isso vocês já sabiam)
Seja como for, o dinheiro reunido ainda não é, nem de longe, suficiente para resolver todos os problemas, nem para salvar todas as vidas "salváveis". Olhem ali para cima: estão a ver aqueles NIBs? Andam à procura da melhor maneira de começar o ano? Aí a têm.
Se tudo correr como prevejo, amanhã não vai haver um
post novo. Não é grave: se tudo correr como vocês estão a prever (e a desejar) amanhã também não iam ler nada, por isso...
Espero que o ano que agora entra vos traga, não digo tudo o que desejam mas, pelo menos, tudo o que merecem. Já não era mau.
Até para o ano!
Grande Luso Pequenino (2)
É extraordinária a falta de pudor que se vive nas redacções de jornais e telejornais. Haverá limites? Ontem passou na tv uma reportagem sobre o facto de o turismo Algarvio poder beneficiar da tragédia asiática. Olha que fixe! Aproveitemos, então, a magnífica oportunidade com que a sorte nos bafejou!
Hoje, também tive a oportunidade de ver a nossa célula de crise, criada para lidar com as consequências do Tsunami asiático, em pleno funcionamento. António Monteiro encenou (ou deixou que se encenasse e gravasse para a tv) a situação "de normalidade". António Monteiro, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal está numa sala apertada, de pé, com o casaco do fato fechado, a falar ao telefone. Ao lado dele estão umas boas 7 ou 8 pessoas, também de pé, também vestidas formalmente, também sem nada para fazer, a não ser olhar para ele, que fala ao telefone. Ele desliga. "Ainda não há novidades". E pronto. É assim que funciona a célula de crise.
Ontem disse que eram 60.000 mortos? Errata, agora são 80.000 (
and rising);
Repito a pergunta de ontem: Quanto é que vale a vida de um preto?
É que, se fossem brancos, haveria mais dinheiro, mais meios, mais comoção, mais tudo. Aliás, olhando para as reportagens que se fazem, a grande preocupação é saber quantos portugueses é que estão desaparecidos. 50 portugueses desaparecidos valem mais que 80.000 asiáticos mortos. E se fossem americanos?
Deixo esta imagem, com a esperança de que o Algarve tenha um ano turístico excepcional.
Quanto é que vale a vida de um preto?
A pergunta é pertinente. Quanto é que vale a vida de um preto? Ou de um oriental? Ou de um esquimó? Devem valer o mesmo. Para nós, são todos pretos. Valem pouco.
Na Ásia, acabam de morrer 60.000 pessoas. 60.000 seres humanos, com sonhos, expectativas, famílias. 60.000. De uma penada. Mas tendo em conta que há dezenas de milhares de desaparecidos, deverão ser mais. E muitos mais ainda se lhes seguirão. Por causa de epidemias. Por causa das carências extremas. Por nossa causa. Por nossa causa? Sim. Sim. Sim.
SIM! Os que, depois de terem sobrevivido à catástrofe, morrerem por falta de assistência, vão pesar na consciência do Mundo Ocidental. Partindo do pressuposto que o Ocidente tem consciência. Estou a falar de si/ti também.
Ficaram sensibilizados com o que aconteceu em PhuKet, Aceh, Sri Lanka, Índia? Até que ponto?
Lembrem-se apenas: No 11 de Setembro de 2001 (que ninguém está aqui a desculpar!) morreram 3.000 seres humanos. Agora estamos a falar de VINTE vezes mais pessoas.
E que fazem os nossos governos, face à maior catástrofe humanitária em décadas? Simples. Portugal, EUA, União Europeia preparam-se para lançar umas migalhas sobre os cadáveres. Os mais generosos estão a pensar doar 0,2% do PIB (que mãos largas!)!
O Mundo civilizado mostra a sua face mais bárbara: mesmo vistas no conjunto, as ajudas internacionais (excepto, talvez, algumas ONG´s) vão ser um insulto. Não apenas para as vítimas, mas também para nós.
Se fosse ao contrário, se a Morte tivesse decidido aparecer por aqui, se estas fotos horríveis (mas que é preciso ver) fossem em Portugal e mostrassem portugueses... Eu nem pensava, juro, nem pensava em começar uma guerra contra os filhos da puta que me mandassem migalhas para cima para fingirem que estavam a fazer alguma coisa. Guerra santa, podem crer...
Há alturas em que odeio o facto de ser ocidental, europeu, civilizado e cagão.
Podemos fazer duas coisas.
1. Dizer: "Não há nada a fazer" e cruzar os bracinhos.
ou
2. Recusar a esmola do Governo e mostrar que não somos crápulas. Como? Contribuindo com o que for possível para as contas de quem está a fazer alguma coisa no terreno. Não o devemos fazer por sermos ocidentais. Mas sim enquanto seres humanos. Não por ser Natal. Mas porque é imprescindível para salvar vidas! Já!
Se acharem que este apelo tem alguma razão de ser, decidam qual é o montante que podem dispensar e dirijam-se ao Multibanco (ou ao balcão do vosso banco) e façam uma transferência bancária para:
Caritas ajuda vítimas do Sudeste Asiático NIB: 003506970063091793082 (CGD)
Apelo de emergência da Cruz Vermelha: NIB: 001000001372227000970 (BPI)
SOS Crianças da Ásia UNICEF: NIB:
003501270002824123054 (CGD)
(
in Público 28.12.04 - mas confirmem, por favor, o número junto do banco)
PS: Sei bem que a foto escolhida fere. E muito. A mim também feriu. Aquelas pessoas podiam ser nós, os nossos pais, os nossos filhos. Mas a escolha desta foto não foi gratuita. Foi feita para mostrar, sem sombras para dúvidas, que estamos em face de uma catástrofe que não nos pode deixar indiferentes. Peço desculpa a quem se tenha sentido chocado. Mas a ideia era mesmo essa.
Grande Luso Pequenino (1).
Estava a ver na televisão (essa grande fonte de
nonsense) uma reportagem de telejornal sobre uma aldeia que está a preparar o maior cozido à portuguesa do mundo. 500 quilos de carne de vaca, 250 quilos de porco, 300 frangos...
E, nesse momento, um pensamento assaltou-me (literalmente: tive que lhe dar a carteira e o código multibanco): "Por que raio é que temos a fixação colectiva de entrar para o
Guiness?
Seremos todos doidos? (É melhor não responderem, a verdade talvez não caia bem).
De onde é que veio esta psicose? Somos os maluquinhos dos recordes, é? E, ainda por cima, nos recordes negativos:
Os piores na estrada, na educação, no urbanismo, na saúde, no civismo, na irresponsabilidade, etc..
O que é que nos deu, malta? O que é que o
Guiness tem de fascinante? O homem com as maiores unhas do Mundo? A mulher mais gorda do Mundo? O homem que faz mais bolas de sabão com o nariz do Mundo? Queremos figurar, como povo, ao lado destas aberrações? É esse o feito, o legado, que deixamos orgulhosamente, aos nossos filhos?
O fenómeno começou em 98, se bem se lembram. No tabuleiro da maior ponte da Europa (algo de que poderíamos, em tese, orgulhar-nos) fomos capazes de borrar a pintura e servir a maior feijoada do mundo (e alguns milhares serviram, gratuitamente, de figurantes, a um anúncio de detergente); Depois, começou a adesão dos padeiros(o maior bolo-rei; a maior trança de chocolate); dos políticos (o maior logotipo vivo do mundo: euro 2004); e,
last but not least, dos parvalhões (a maior concentração de Pais Natal, num estádio (SLB) e numa cidade (Porto) do Mundo);
Precisaremos assim tanto de atenção? Estaremos assim tão de rastos? Será fundamental ter a maior árvore de Natal da Europa? Ou a maior concentração de burro ibérico de sempre? (Congresso do PSD? (2)
Realmente, devo ser eu que estou deslocado. Podíamos concentrar-nos em aperfeiçoar a cidadania, a saúde, a investigação científica, a democracia, a educação. Podíamos atacar os grandes problemas nacionais com esse tipo de entrega colectiva. Está provado que temos energia para isso. Fizemos a Expo, o Euro, as Manifs por Timor...
Mas isso não dá direito ao
Guiness, pois não? Desculpem lá ter, sequer, pensado nisso. Vou rever as minhas prioridades. Talvez me junte à onda e tente fazer o pior espectáculo do mundo (espera aí, isso já fiz). Vou mudar, prometo.
Talvez apareça lá, na tal aldeia, para comer um bocado de cozido à portuguesa. Com sorte, esse é um recorde que os espanhóis e os gajos de Singapura não vão querer superar.
1. "Grande Luso Pequenino" é uma expressão que faz parte do novo hino do PPD-PSD. Ou foi gralha, ou alguém saberá explicar o seu significado.
2. A referência ao Congresso do PPD-PSD teve contornos de mau gosto, a todos os títulos reprováveis. As minhas desculpas ao burro ibérico.
What´s in a name?
A frase, "roubada" à
Julieta Capuleto, em Romeu e Julieta, de
Shakespeare, ocorreu-me quando, há pouco, resolvi pesquisar pelo
Google, à procura do meu próprio nome.
É uma sensação estranha, descobrir gente cuja única ligação connosco é o próprio nome. Ou talvez não. Eis alguns exemplos:
Miguel Barros, português, co-autor de um blog. Escreve
posts com episódios de ficção;
Miguel Barros, português. É chefe do gabinete do ministro da justiça;
Miguel Barros, espanhol. Líder do PSOE na Galiza.
Miguel Barros, brasileiro, realizador de cinema. Ganhou um prémio internacional por um filme sobre o fenómeno dos Sem -Terra, no Brasil
José Miguel Barros, comentador de desporto automóvel, locutor da RTP;
Roberto Miguel Barros, argentino, licenciado em Direito. Desapareceu nos anos setenta. Engrossa os números de desaparecidos da ditadura militar.
E não acaba aqui. Há um jogador de futebol, um publicitário e outros. E estamos a falar apenas daqueles Migueis que estão na net.
What´s in a name? Provavelmente, muito pouco. Mas gostei de os conhecer, ainda que tão superficialmente. Afinal, não são menos Miguel Barros do que eu. E esta pesquisa também me deu a humildade de entender que não é o nome que faz de nós seres únicos. É o que fazemos mas, acima de tudo, aquilo que somos. Independentemente do nome, somos mesmo todos únicos e irrepetíveis.
A todos os Miguel Barros deste mundo, um abraço! Façam por honrar o nome que os vossos pais vos deram, que eu tento fazer o mesmo. Não nos vamos envergonhar uns aos outros, manchando o nosso nome, OK?