Seja bem-vindo quem se vier por bem
Discordar do discordante
Há uns dias, escrevi um texto um tanto agressivo sobre aquilo que achava ser a avareza dos governos ocidentais na falta de ajuda aos países asiáticos afectados pelo
Tsunami (Há uma marca de computadores com este nome. Será que vão manter?). Na altura, chamei "filhos da puta" aos governos ocidentais (por acaso, continuo com essa opinião). Avancei por aí fora, lembrando que não podíamos ficar menos horrorizados com as mortes em Aceh, Sri Lanka, Phu Khet, que com os mortos do World Trade Center. E fui mais longe, dizendo que era por essas, e por outras, que o Ocidente (não apenas os americanos) é visto pela maior parte da população mundial como um alvo de ódio profundo e, se for o caso, alvo militar/terrorista. Denunciei aquilo que considerava (e considero) a hipocrisia do hemisfério norte e coloquei os NIBS de algumas contas de solidariedade no topo do
blog.
Esse
post mereceu a indignação de alguns dos leitores. Indignação essa que chegou a ser plasmada em comentário, por mais que uma vez. Deixem-me dizer que compreendo a indignação. Respeito-a. Até a acarinho. Provavelmente, essa indignação é fruto de corações menos cínicos e amargos que o meu e isso é bom.
Mas não retiro uma palavrita ao que escrevi. Aliás, nem é meu hábito, retirar palavritas, a menos que mude mesmo de opinião.
Por exemplo, na véspera da morte do Professor Sousa Franco, tinha eu colocado umas piadas sobre ele no meu
site e decidi mantê-las. Porque não me pareciam verdadeiramente ofensivas e porque retirá-las era uma forma cínica de oportunismo. Está escrito, está escrito. Na noite da morte dele, aliás, tive um espectáculo em que contei essas mesmas piadas, face a uma plateia horrorizada e muito incomodada. No fim, rematei com qualquer coisa como: "Não acreditem nos elogios póstumos. Se os adversários dele lhe chamaram tudo até há umas horas, não pensem que os elogios e o silêncio de agora são sinceros. Neste país, um gajo só é porreiro quando morre." Também disse que tinha sido aluno dele, em Direito. E que o admirava, apesar de ele ser casmurro, temperamental e agressivo. Era a minha forma de ser justo para com a memória do velho Professor. Dizer a verdade, mesmo que fosse apenas a minha verdade. À medida que falava, na noite do espectáculo, sentia-me comovido, mas evitei que isso transparecesse, porque o público bem dispensava a pieguice.
Isto para dizer o quê? Que o texto da Ásia era sentido. Seria exagerado? Com certeza.
Mas era a minha verdade. É a minha verdade.
E não fui eu, foi a indignação internacional de gente indignada de todos os quadrantes que fez com que os filhos da puta dos governos do ocidente multiplicassem por muitos as verbas para a ajuda. E a ironia é que agora esses filhos da puta andam a competir, entre eles, para ver quem contribui mais. Para quê? Obviamente para salvar gente. Mas também para satisfazer os seus eleitorados e para ganhar posições de influência e poder junto daquela área do globo. Uma vez filhos da puta, sempre filhos da puta. Lá nisso, são coerentes.
Talvez tenha errado na forma do primeiro
post. Mas não no conteúdo.
Já agora, se nos preocupamos verdadeiramente com o estado do mundo, então comecemos (também) a pôr os olhos na crise do
Darfur, foco de um
genocídio que está a acontecer debaixo dos nossos narizes. Não podemos deixar esse assunto fora da agenda internacional. Apesar de não haver imagens de meninos suecos desamparados para mostrar.

"Esta prisão de ventre é terrível!"
Cá se fazem
O PSD anda mesmo em maré de azar. Parece que nada corre bem. Depois de dar uma conferência de imprensa para fingir que esclarecia a barracada da colocação dos professores, a futura ex-ministra da educação recusou-se ir à Assembleia da República prestar esclarecimentos sobre o mesmo tema. "Não era interessante". Com toda a lata do Mundo, Morais Sarmento explicou que ela tinha razão, que já toda a gente tinha sido informada e os deputados não eram mais que toda a gente (o que dirá ele se o PS tiver o mesmo tipo de atitudes daqui a uns meses?). Ironia das ironias, poucas horas depois, Bagão Félix aparece na Sic Notícias revoltadíssimo porque o Governador do Banco de Portugal optou por dar uma conferência de imprensa sobre a má situação da economia, em vez de falar primeiro com o Governo. Enfim. Se não fosse triste, até teria piada. Deixai-os morrer com dignidade.

Dai-me uma moedinha, por obséquio...
PS: Outro tema sério. José Magalhães, para criticar a ministra disse: "Deus Meu, isto não é o cabeleireiro!" Podia ter toda a razão do mundo, mas a forma misógena como se referiu à ministra desqualificou-o e insultou as mulheres deste país. Não é só o PSD. O PS também tem alguns "machos" fora de prazo.
Ah, cara linda!
Quem é que pode censurar o Cavaco?
Alguém quer ficar ao lado deste tipo numa fotografia?
Onde é que pomos o Pôncio?
PM: ´Tou? Você estava a dizer o quê?
MR: Que lamentamos muito, mas o Conselho Nacional decidiu exclui-lo das listas.
PM: O Conselho Nacional, ou o Rio?
MR: É mais ou menos a mesma coisa.
PM: E agora, faço o quê? Atiro-me ao Rio?
MR: Não sei. Mas prontos, já lhe disse o que tinha a dizer.
PM: E o Santana, não me vai telefonar?
MR: Pois... Ele anda muito ocupado, sabe?
PM: A dormir a sesta?
MR: Sim. Não! Ele não dorme sestas!
PM: Pelo menos, não dorme à noite.
MR: O nosso homem nunca dorme. Então, com licença, sim?
PM: Espere aí! Eu tenho aqui, no outro telefone, a Margarida Rebelo Pinto.
MR: Sim?
PM: Ela diz que também foi convidada para deputada.
MR: E foi mesmo. Ela é a vanguarda intelectual do partido.
PM: Ok. Mas ela estava a dizer que não quer nada convosco e que tinha recusado o convite. Por isso, o lugar está vago...
MR: E?
PM: Não dava para fazer a troca?
MR: Não sei. O que é que a Margarida acha disso?
MRP: Sei lá!
MR: Isso não é o nome de um livro seu?
MRP: Sei lá!
MR: Mas acha bem a troca? Realmente, é engraçado. E o lugar está livre...
MRP: Não há coincidências...
MR: Está feito, então. Dr Pôncio: voltamos a desdesconvidá-lo.
PM: Não percebo.
MR: Tinhamo-lo convidado, não foi? Depois ouve aí uns zunzuns de que o tinhamos desconvidado, por isso reconvidámo-lo. Depois desconvidámo-lo. Agora estamos a desdesconvidá-lo. Ou a rereconvidá-lo. Como quiser. É muito simples.
PM: E é a vossa última posição?
MR: Claro! Nós não mudamos de posição em coisas destas.
PM: Mas não é o Santana que tem que decidir isso?
MR: Desde quando é que ele manda alguma coisa aqui? Aceita ou não?
PM: O que é que acha, Margarida?
MRP: Sei lá!
PM: Então aceito!
MR: Agora, já foi tarde! Vamos desdesdesconvidá-lo!
PM: Vão o quê?
MR: Desdesdesconvidá-lo. Ou redesconvidá-lo, se quiser!
PM: Retiram-me assim o convite?
MR: Sim.
PM: Não podem reconsiderar?
MR: Nós não mudamos de posição em coisas destas.
Olhem bem para o símbolo do PSD
Uma coisa que sempre me intrigou foi o símbolo do PSD. Olhava para ele e a minha pequena cabecinha disparava: "o que é que aquilo representa, pá?"
O dr Santana Lopes conseguiu, pela forma como conduziu os destinos do Partido (que, aliás, nunca esteve tão partido) esclarecer todas as minhas dúvidas. O símbolo do PSD não tem um, mas vários significados. Reparem na setinha branca, perseguida pelas setonas mais esbatidas, aquilo tem várias leituras, alternativas, mas complementares:
1. A setinha branca é um espermatozóide (Santana, numa versão ainda mais precoce da metáfora do bebé prematuro) acabadinho de saltar cá para fora, expelido pelos dois grandes falos da história do partido (Sá Carneiro e Cavaco Silva);
2. As setas representam os valores mais caros ao Partido, todos em alta, quando este está no poder: inflação, desemprego, tacho;
3. As duas setas grandes representam Santana e as suas duas cabeças. A seta branca pequenina é obviamente uma referência a Marques Mendes;
4. As setas grandes representam a pesada herança socialista: despesismo e défice. A pequenina é Durão Barroso, em plena fuga para a Europa;
5. As setas são óbvias. O PSD é um partido feito à imagem do líder: um partido alto-astral, bué da jovem, despreocupado e que, sempre que há problemas... chuta para cima.
6. As setas apontam para o céu. Como se dissessem: "Tudo o que sobe..."
7. As setas representam a ligação sentimental do PSD ao país: É um partido que se espeta no cu de Portugal.
8. As setas são uma homenagem aos três líderes intelectuais da nação: Santana, Portas e Cinha Jardim;
9. As setas são 3 e não é por acaso. É para que possamos dizer do PSD, o que se diz do número: 3? É demais.
10. As setas apontam o destino eleitoral do PSD nas próximas eleições: Não, não é uma subida triunfal. É que o PSD vai levar um pontapé no cu tão forte, que até voa.
Nota: Desculpem lá o tom obsceno e boçal deste
post. Não é que isso me sirva de desculpa, mas estou cheio de sono. Além disso, o que é que um gajo há de dizer de um partido como este? Leiam a nota2.
Nota 2:Santana Lopes mostrou, mais uma vez, que é um líder firme, inteligente e sério, capaz de escolher os homens certos para a nação. Exemplos? Olhem o Pôncio Monteiro, querem mais?! E Santana? Que postura firme e elevada ele teve, Deus meu! Num dia, convidou-o, com cinco telefonemas pessoais e a promessa de o colocar em nº 2 da lista pelo Porto. No dia seguinte, desconvidou-o (a mando de Rui Rio, claro, quem é que é mais importante?). Mas fê-lo com notável lisura, frontalidade e elegância... não lhe disse nada. Ficou calado e comunicou à imprensa. Esta gente anda a fumar coisas? Já chegámos à Madeira? (Não respondam, por favor...)
O pobrezinho perde validade depois do Natal
Eu sei, eu sei... O título deste
post é muito cínico. Era só para chamar a atenção.
Já repararam que os pobrezinhos perdem encanto, poucos dias depois do 25 de Dezembro? É um problema que eles têm, tadinhos. Deve ser por isso que a malta deixa de lhes ligar na maior parte dos restantes trezentos e tal dias do ano. É claro que desta vez, andamos um pouco mais generosos, e com os olhos na Ásia, mas isso é (felizmente) conjuntural e não tem nada a ver com a quadra natalícia.
Não é assim com toda a gente, atenção! Há quem faça trabalho de voluntariado durante todo o ano. É o caso das organizações assistencialistas que acabam por fazer aquilo que era obrigação do Estado. Essa malta que abdica do seu tempo e se presta a ajoelhar-se no chão para servir o próximo e deixá-lo com um sorriso nos lábios (Banco Alimentar, Comunidade Vida e Paz, Médicos sem Fronteiras, José Castelo Branco) é que merece todo o nosso apoio e respeito. Aqui há umas semanas, eu e a Susana fomos a um jantar de grupo a casa de um velho amigo. Inicialmente, o mote da noite era uma troca de prendas (de valor simbólico). Mas rapidamente a coisa ganhou outro sentido, e decidiu-se que toda a gente ficava de trazer roupa que já não usasse (mas em bom estado) e leite, para entregar à Comunidade Vida e Paz. Foi muito porreiro. E sugiro-vos que façam o mesmo (não apenas, obviamente, no Natal). Até é bem simples, basta contactar a Organização da vossa preferência, perceber o que é que lhes faz mais falta e marcar o jantar.
Fiquei muito feliz por poder contribuir para um mundo melhor. Além de ter despachado uma catrefada de roupa velha e libertado espaço no roupeiro, sei que, daqui a uns dias, vou poder encontrar na rua um indigente qualquer, provavelmente drogado, com as minhas roupas vestidas. Se ele me cravar uns trocos, respondo: "Só se me pagares pela roupinha, ó malcheiroso!" E dou-lhe um valente pontapé nos testículos.
Sim, porque eu acredito mesmo na solidariedade: faz-nos sentir bem, enriquece-nos humanamente e aumenta as nossas hipóteses de ir para o Céu. É um bom investimento a longo prazo.
Imagem do dia:
"E aí, eu dei-lhe tau tau!"
Que o próximo ano...
...seja excelente!
...traga tudo o que tu queres!
...se revele inesquecível!
...não seja tão mau como o anterior!
Tretas!
Estas frases, tão usuais nos dias que correm, mostram que somos muito pouco ajuizados e bastante supersticiosos. Já repararam que este tipo de desejos é sempre dito como se nada dependesse de nós? "Que... aconteça! Que... tal e coiso!"
Sim, é como se disséssemos colectivamente: "Isto não depende em nada de mim. Eu estou porreiro. Isto não depende de ti... tu és fixe. Portanto, esperemos que, para o ano, a intervenção divina faça desabar uma torrente de dinheiro, sorte, felicidade, orgasmos múltiplos, etc.. sobre ti! ...e sobre nós!"
É como se todos nós fossemos perfeitos (ou irremediavelmente imperfeitos) e não pudessemos fazer nada para melhorar as nossas vidas. Como se 2004 tivesse sido mau (se é que foi mau - estas etiquetas são sempre de eficácia relativa) porque Deus, os astros, o acaso ou a vida assim o quiseram. Então e nós mesmos? Somos vegetais? Somos acéfalos? Estamos cristalizados?
E porquê esta fixação com as datas? Por que é que o 1 de Janeiro é assim tão simbólico? É pelo ritual? Reparem que a noção de ano é relativa e civilizacional. O próprio calendário é uma convenção. Na China, por exemplo, o ano começa e acaba em datas diferentes. E mesmo em Portugal, se quiserem, há vários subcalendários a ter em conta:
1. Na região norte, eles ainda nem acabaram de celebrar o ano do Dragão (para mal dos dez sportinguistas e dos quinze milhões de benfiquistas do país);
2. Para uma determinada seita, os santanicos, só daqui a um mês e tal é que vai acabar o ano da besta;
3. Para Cavaco Silva, o ano só acaba quando ele quiser e se circunstâncias extraordinárias o exigirem;
4. Para António Guterres, o ano só acaba se as sondagens assim o ditarem;
5. Para José Sócrates, o ano só acaba se ele deixar;
6. Para Francisco Louçã, o ano só acaba se o pacto de estabilidade também acabar;
7. Para Jerónimo de Sousa, os anos nunca passaram;
8. Para Paulo Portas, o anos é uma coisa muito elástica.
Mas tudo bem. O Homem (e a Mulher) é um animal social. Precisamos de rituais, OK. Então, aceitemos a convenção. O dia 1 é um recomeço? Seja. Façamos de 2005 um ano especial. Comecemos nós a mudança. Em nós mesmos. Aproveitemos este recomeço para melhorarmos a nossa atitude. Face ao espelho, à família, aos amigos, aos inimigos, à vida. Sejamos mais activos, mais interventivos, mais exigentes, mais trabalhadores, mais livres, mais humildes, mais eleitores, mais cidadãos. A contar, por que não, a partir de hoje. Afinal,
Este é o primeiro dia do resto das nossas vidas.