A Dúvida é que me encanita
Não sei se já o disse, mas tenho um espectáculo em cena. Chama-se "Gosto Muito do Que Fazes" e está no auditório Camões, de quinta a sábado, às 21.30 e domingos às 18.30. O auditório Camões fica perto das Picoas, dentro do recinto do Liceu Camões. É uma sala muito bonita e bem equipada, não pensem que, lá por ser num liceu, é um cubículo abafado com meia dúzia de cadeiras de plástico. E o espectáculo é muito divertido e inteligente.
Também não sei se já o disse, mas o teatro costuma ser efémero. Quer isto dizer que não é provavel que o espectáculo esteja em cena até ao dia do juízo final. E quer isto dizer que, se é para irem ver... Vão mesmo! Ou eu fico encanitado.
Mais ou menos morto
A morte é um acontecimento complicado. Costuma ser irreversível. É como a gravidez, não se pode estar meio - morto, nem meio grávido.
Não?
Extraí esta conversa hoje de uma emissão noticiosa especial na TSF. A citação não será perfeita, mas não "inventei" nada:
Jornalista (J): Interrompemos a programação para dar conta dos desenvolvimentos sobre o estado de saúde do Papa. De acordo com a Sky italiana, o Papa foi submetido a um electroencefalograma e a um electrocardiograma. Em ambos os casos, o Papa não apresentou sinais vitais. Para analisar esta informação, tenho comigo o dr...
(? - não fixei o nome)
(...)
Médico (M): Se se confirma que o Santo Padre não tem sinais vitais, nesse caso estamos a falar com razoável certeza num cenário de morte clínica. Até estranho terem feito esses exames, não são necessários para chegar a essa conclusão.
J: Mas então, se está a falar de morte clínica, essa é uma situação definitiva?
M: Costuma ser.
J: E é irreversível.
M: Sim.
Incrível, não é? Precisarmos das palavras de um médico, para saber que a morte costuma ser irreversível. Viva a informação de qualidade da TSF! (sobre uma morte que ainda nem está confirmada, aliás)
Papa
Encanita-me a ideia comum de que podemos massacrar-nos todos uns aos outros... excepto quando o massacrado está a morrer (ou acaba de morrer). Passado algum tempo sobre a morte do dito já se pode voltar ao insulto, mas há ali um período de nojo que, a mim, sempre me soou meio hipócrita. Quando foi da morte de Sousa Franco (que eu admirava) fiz questão de contar uma série de piadas sobre o homem em pleno espectáculo... no DIA da morte dele! Foi a melhor homenagem que lhe podia fazer, e pelo menos, era mais sincero que os elogios súbitos das pessoas que sempre o odiaram.
Só por causa disso, hoje vou homenagear o Papa, uma personalidade de quem não gosto (mas cuja vida respeito). Claro que, quando falo em "vida" não conto os últimos dez anos.
Agora, vou escrever uma coisa que se vê muito nos sites pornográficos (não que eu frequente sites porno, ouvi dizer que era assim)...
PODERÁ ACHAR ESTE TEXTO DE MAU GOSTO OU ATÉ OFENSIVO. SE CALHAR, ATÉ É. SE ESTÁ NA DÚVIDA, O MELHOR É PARAR DE LER JÁ E EXPERIMENTAR OUTRAS OPÇÕES, SITES PEDÓFILOS, POR EXEMPLO. SE QUISEREM CONTINUAR, ESTÃO POR VOSSA PRÓPRIA CONTA E RISCO.
(eu sabia que isto ainda vos ia aguçar mais o apetite - agora não se queixem)
- Como é que o senhor se chama?
- Karol.
- Karol? É meio amaricado, não acha?
- Sim. Estava a pensar mudar.
- Mudar? E como é que gostava de se chamar?
- Andreia.
- Mas isso ainda é mais amaricado.
- Então pode ser João Paulo, pronto...
- Já temos um.
- Então fico João Paulo Segundo e não quero falar mais nisso!
Anunciaram nas notícias que o Papa recebeu a extrema unção. Aliás, até disseram que já a recebeu várias vezes no passado (ex: quando sofreu o atentado, nos anos oitenta, quando deu entrada recentemente na clínica, antes de cada operação nova...)
Com tanta preocupação em extremo-untar o homem, começo a ficar com a ideia de que, no Vaticano, a morte do Papa é vista mais como
wishful thinking por todos os bispos e cardeais. Só o próprio parece ainda resistir à ideia.
Algo que me ocorreu: se o Papa está tão próximo de Deus, por que é que Este está com tanta hesitação em chamá-lo a Si? Deus anda a adiar tanto... Até parece que não o quer por perto...
É natural. João Paulo é tão popular que ainda ouviríamos no Céu: "Quem é aquele tipo barbudo ao lado do Papa?"
Os extremos tocam-se mesmo! Já viram as extraordinárias semelhanças entre João Paulo II (que é uma encarnação óbvia do bem) e outro ícone popular (este do lado das trevas)? Troquem-lhe o manto branco por um preto, reparem na forma sofrida e carregada como respira, lembrem-se do facto de ele estar completamente dependente de máquinas para sobreviver... E... Só falta a máscara para termos...
Darth Vader!
Diz quem sabe que há boas hipóteses de termos em breve um Papa português. Mas Pinto da Costa já anunciou que só aceita se for compatível com os estatutos da SAD.
Milhares de pessoas juntaram-se para rezar pelo Papa. Desculpem-me a insensibilidade: qual é o objectivo? Querem prolongar ainda mais o sofrimento do desgraçado? Rezar para que ele vá sem problemas para o Céu? Se o Papa tem dificuldades em entrar, perco já a esperança para mim!
(eu avisei)
Também me encanitam...
os novos autocolantes nos elevadores
. Dizem para termos cuidado com o transporte de objectos volumosos, tais como contentores de lixo, crianças, carrinhos de bebé e bicicletas. O reparo alerta para o perigo de a porta do elevador fazer deslocar esses objectos de forma perigosa. A ideia é simpática, mas encanita-me terem escolhido uma imagem completamente obtusa para ilustrá-la: o contentor esmaga as partes baixas de um indivíduo que, com uma serenidade a toda a prova, como que se resigna a um destino inevitável de paraplegia e sofrimento atroz. A expressão do homem mantém-se inalterável, não obstante as dores insuportáveis que o invadem! Também me encanita terem escolhido um contentor do lixo. Já que falam em outros objectos, seria interessante se o gráfico mostrasse, por exemplo, uma bicicleta. Onde se enfiaria acidentalmente o guiador da mesma, na sua ascenção voraz e inexorável? Fica à vossa imaginação.
E ainda são referidos mais objectos, como crianças (crianças são objectos (?) E se mostrassem antes isso? O fedelho esmagaria com a cabeça as partes baixas do indivíduo? E este continuaria com a mesma expressão? Mostraria angústia, ou ostentaria um sorriso nos lábios?
Ainda me encanita a pergunta (brutalmente frequente sempre que estou com algum espectáculo em cena): "Estás até quando?" Sei que a pergunta é bem intencionada, mas é o primeiro sinal de que o questionante não vai ver o espectáculo. Normalmente, a sequência é esta:
"Estás em cena até quando?"
"Ai é? Então claro que te vou ver! Dá mais que tempo!"
Pois é. Dá tanto tempo, que a pessoa esquece.
(Esta não se aplica ao Bruno Schiappa, que está no Canadá)
Mais encanitanços de emergência.Encanita-me, tal como a planta, o sinal: "Comando de emergência": fico à espera de ver a chegada dos tropas. Também me encanita, ainda, a expressão "botão de emergência" a menos que se refira à braguilha (quando aberta).
Ainda me encanitam mais as caixinhas com um vidro a dizer "Quebrar em caso de emergência". Dá-me sempre vontade de partir só para ver se funcionam. Admitam que é uma tentação muito encanitante.
Encanita-me a minha própria desorganização. Passo dias sem escrever aqui para o blog e depois escrevo textos longos que davam para vários dias. Desculpem lá se a minha inconstante produtividade literária vos encanita.
Quando vejo
...aqueles
placards a dizer "planta de emergência", olho logo para o chão, à procura do vaso.
Encanita-me!

Encanita-me a Páscoa. Também me encanitam os outros feriados religiosos, mas a Páscoa tem um lugar especial no meu coração empedernido e anti-religioso. Não percebo por que é que a morte e ressureição de Cristo devem ser associadas ao consumo desenfreado de amêndoas e chocolates. Será que os apóstolos foram fazer um pique-nique, ao quarto dia? E o que é que o imbecil do coelho tem a ver com isto? Foi ele que pariu os ovos? Ou será que os apóstolos acharam que as suas caganitas pareciam amêndoas cobertas com chocolate? Quando forem comer as vossas amêndoas hoje, pensem nesta imagem...
Boa Páscoa!

mais coisas que me encanitam
Encanita-me que a sinalização de algumas portas em sítios públicos esteja em inglês. Não é só por patriotismo, também há uma razão prática. Eu ainda percebo alguma coisa de inglês, mas admito que haja gente para quem o push e o pull façam confusão. É que à partida, push (empurre) lê-se: puxe (o oposto) e pull parece "pule". Se virem um tipo a puxar desesperadamente uma porta que não abre, ou a saltar que nem um parvo, já sabem o que foi: falta de formação em inglês.
Também me encanitou a ideia de que, tendo os últimos posts tido o mesmo título, alguns caros leitores, por preguiça, não se deram ao trabalho de ir ler. Por isso coloquei neste a imagem da porta. Encanita-me o facto de me encanitar com as pequenas coisas, designadamente aquelas que não deveriam ser susceptíveis de despertar sentimentos encanitatórios. Ando muito encanitativo, é o que é.